“Construir contos secos. Cortantes. Ácidos. Choveu o dia; quando tarde, sol veio, noite se foi. O trem está ali parado. A mulher de saltos sobe a plataforma.”
(MIOLO, livro de contos Gilberto Motta – 2026)
— Sabe que eu gosto…
Por todos os lados os modelos. Frases feitas. Esquemas. Escrever assassinando qualidades. Obsessão pelo essencial.
— Sabe que eu gosto muito de você…
Amor é dor que ainda não chegou. Construir contos secos. Cortantes. Ácidos. Choveu o dia; quando tarde sol veio, noite se foi. O trem está ali parado.
— Sabe que eu gosto muito de você e não sabia…
A estação espera. Plataformas retardam a passagem do amor.
Invento contos para o menino que um dia fui. Viajante de formas.
A dor espreita, espera, avança.
O olho seco no corpo que passa. Sedução de movimentos.
Pernas que dançam sobre saltos.
— Sabe que eu gosto muito de você e não sabia que o amor existia…
Meu coração tropeça. O chefe apita o trem e a dor desanda.
Trilha de sangue no trilho de aço. O salto de verniz espelha o sangue e o mundo espreita.
O menino moído sobre o trilho escarlate.
Pernas trêmulas sobem o último degrau. Plataforma transposta.
É hora de reinventar contos para a mulher sobre pernas.
— Sabe que eu gosto muito…
Súbito, o homem vomita adjetivos pela janela.
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Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador. Jura que ainda andará de trem outra vez. Vive na vila de pescadores da Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

