Salto escarlate

Eduardo Martínez
2 minutos de leitura
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Construir contos secos. Cortantes. Ácidos. Choveu o dia; quando tarde, sol veio, noite se foi. O trem está ali parado. A mulher de saltos sobe a plataforma.”
(MIOLO, livro de contos Gilberto Motta – 2026)

— Sabe que eu gosto…

Por todos os lados os modelos. Frases feitas. Esquemas. Escrever assassinando qualidades. Obsessão pelo essencial.

— Sabe que eu gosto muito de você…

Amor é dor que ainda não chegou. Construir contos secos. Cortantes. Ácidos. Choveu o dia; quando tarde sol veio, noite se foi. O trem está ali parado.

— Sabe que eu gosto muito de você e não sabia…

A estação espera. Plataformas retardam a passagem do amor.

Invento contos para o menino que um dia fui. Viajante de formas.

A dor espreita, espera, avança.

O olho seco no corpo que passa. Sedução de movimentos.

Pernas que dançam sobre saltos.

— Sabe que eu gosto muito de você e não sabia que o amor existia…

Meu coração tropeça. O chefe apita o trem e a dor desanda.

Trilha de sangue no trilho de aço. O salto de verniz espelha o sangue e o mundo espreita.

O menino moído sobre o trilho escarlate.

Pernas trêmulas sobem o último degrau. Plataforma transposta.

É hora de reinventar contos para a mulher sobre pernas.

— Sabe que eu gosto muito…

Súbito, o homem vomita adjetivos pela janela.

…………………………….

Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador. Jura que ainda andará de trem outra vez. Vive na vila de pescadores da Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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