Tediolândia

Eduardo Martínez
4 minutos de leitura
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Há toda espécie de mundos no multiverso. E um deles era particularmente tedioso, vou chamá-lo aqui de Tediolândia.

Nele só havia brincadeiras infantis sem a menor graça. Não havia bola, nem mesmo improvisada, de pano, para bater uma pelada com os amigos (os governantes proibiram, considerando que correr atrás de uma bola podia resultar em brigas e provocar quedas e ferimentos); nada de pêra, uva, maçã, e muito menos salada de frutas, para dar um empurrãozinho nos hormônios adolescentes, fazê-los pegar no tranco. O problema é que, na engenharia dos seres desse mundo, os deuses haviam mobilizado uma dose bem fraquinha desse item. Talvez porque quisessem adoradores bem-comportados. Conseguiram-no – às custas de uma pasmaceira ampla, geral e irrestrita.

Nesse mundo tedioso, rapazes e moças só pensavam em sexo por volta dos 18 anos, de preferência após o matrimônio. Com os pais deles havia sido assim, com os avós também… Resultado, praticamente nenhum vucovuco como diversão.

Claro que, em tais circunstâncias, o papai-mamãe era, por larga margem, a acrobacia erótica em voga. Não que as demais posições fossem proibidas, simplesmente não eram encorajadas, sendo vistas como sujas, grosseiras e, sobretudo, antiéticas (filho meu não enfia sua coisa no traseiro de uma moça, isso a machucaria, causaria dor, e o pobrezinho poderia sujar-se, argh, que nojo!).

Em resumo, era um mundo tedioso, habitado por crianças entediadas, moças e rapazes entediados, mulheres e homens entediados. Mas era um mundo tecnologicamente avançado, pois, se as divindades haviam regulado a cota de hormônios, haviam sido generosas com a distribuição de neurônios.

Por essa razão, seus aparelhos captavam transmissões de diversos outros planetas do multiverso. Quando os adultos assistiam a produções originárias da Terra – rigorosamente proibidas para menores de 25 anos locais – ficavam embasbacados com o que viam. Um podcast sobre o texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de Sigmund Freud, em especial, provocou reações indignadas. À semelhança do que acontecera na Europa em 1905, quando o texto foi publicado, alguns consideravam tudo uma imoralidade a ser sumariamente descartada. Outros, mais sofisticados, pensaram coisas assim:

“É como se os seres da Terra dotados de razão tivessem mais hormônios que nós, fossem dotados de uma sexualidade que se manifesta antes mesmo da puberdade”. E davam graças aos deuses por terem sido poupados desse flagelo.

Quando algum habitante desse mundo batia as botas e chegava ao céu (havia na Tediolândia pouquíssimo pecado, ninguém ia direto pro inferno), os anjos mais rodados, que haviam cumprido missões em outros mundos, comemoravam:

— Ueba! Chegou mais um!!!

Quando os demais anjos perguntavam o porquê de tanto entusiasmo, a resposta era sempre nesta linha:

— Porque só os que vêm desse planeta se entusiasmam verdadeiramente com o paraíso, considerando-o mais excitante e divertido que o mundo em que viviam. É gratificante ver a emoção deles!

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