De beiras e bordas

Eduardo Martínez
2 minutos de leitura
Gilberto Motta - Texto e Fotos

A beira é a medida.

Quando atingimos o contorno, temos que parar ou extravasar.

Recuar ou persistir.

Travar ou prosseguir.

Decidir a fuga.

Beiradas deixam as pessoas um tanto suicidas.

Construímos bordas desejando dominar e aprisionar o conteúdo.

Temos horror aos limites.

Reinventamos margens em busca de mais espaços.

Na verdade, o espaço é sempre o mesmo; o que buscamos é possuir.

Invadir, ampliar territórios.

Algumas pessoas têm pavor especial às bordas e beiradas.

Eu não; meu desafio é deformar paredes já levantadas.

No fundo, somos da província.

Lá do brejo.

Filhos da periferia.

Queremos invadir, mas sempre voltar para de onde viemos.

Útero-terra-mãe.

Então, eis que as formas se ampliam no finito território da lembrança.

Água turva no poço-sem-fundo da liberdade/espaço interior.

O desejo e a pulsão se expandem.

E é o corpo esmurrando o coração e derrapando espaços sem sair do lugar. As bordas sempre estarão lá.

Delimitam os nossos medos.

Retornamos a cada avanço buscando o centro, a mão suave, o gesto puro, a casa, a cama, o quintal, a pele, a caverna.

Refúgio, abrigo, caminho, transparência e d’alma.

Epiléticos replicantes com olhos arregalados.

Vertigem fantasmagórica, na beira/borda do buraco negro.

……………………………

Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador. Caminha “no meio da beirada”; o interessante não é o centro e, sim, a periferia. Vive na Guarda do Embaú, vilarejo de pescadores e turistas no Sul de SC.

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