decepções políticas, votar bem é um ato de bravura e de luta pela soberania do povo
*Armando Cardoso
No Brasil das decepções políticas, dos escândalos econômicos, da incompetência de boa parte de nossas autoridades e da falta de vontade de expressiva parcela do povo com a nação, o que é sério no país? Sempre ouvi dizer que a verdadeira grandeza do Brasil está na capacidade de os brasileiros se reinventarem e aprenderem com a própria história. Pelo que ouço e vejo atualmente, acho que a afirmação se perdeu no caminho das aberrações políticas e hoje até a seriedade da população e das instituições é surreal. Para muitos, é mentirosa.
Baseado nos últimos números das pesquisas eleitorais, tenho a nítida impressão de que há algo de podre no reino chamado Brasil. Na verdade, credito eventuais ou deliberados erros aos pesquisadores ou aos pesquisados. Talvez aos dois. Embora poucos saibam, as pesquisas são ferramentas científicas de retrato do momento, mas frequentemente viram alvo de mitos e da desinformação. Resumindo, a consulta mostra a intenção de voto no dia da coleta, ou seja, nada tem a ver com o resultado da eleição. Sou leigo nesse tipo de questionamento, mas continuo achando que os números variam de acordo com o humor dos contratantes.
Salvaguardadas as margens de erro, como explicar a mais recente pesquisa da Quaest/Jornal O Globo? De acordo com os dados, o presidente Lula tinha 36% das intenções de votos no primeiro turno, contra 31% do extremista Flávio Bolsonaro. Curiosa e supostamente os mesmos entrevistados mudam de lado no segundo turno, quando Luiz Inácio perde para Flávio por dois pontos percentuais: 42% a 40%. O mais interessante é que os números contrastam com outros institutos e, principalmente, com o fato de a maioria dos veículos de comunicação, exceção para os radicais conservadores, ter esquecido da campanha presidencial.
A curiosidade não para por aí. O escândalo do Supremo Tribunal Federal em nenhum momento fez ou faz referência à Lula da Silva. Já Flávio Bolsonaro é comprovada e formalmente citado como pedinte de dinheiro sujo a Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”. Por esse envolvimento direto com o banqueiro que é sinônimo explícito de corrupção, o candidato do Partido Liberal, consequentemente do retrocesso, é investigado pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Apesar disso tudo, Lula é o vilão para os entrevistados, entrevistadores e patrocinadores do instituto.
Independentemente de minha escolha eleitoral, é fácil constatar que virou moda entre os mais ferrenhos simpatizantes da direita e da extrema-direita colocar os da esquerda no mesmo balaio da ladroagem, da corrupção e do parasitismo político. Considerando que, em matérias e em opiniões públicas, os crimes de um tempo podem ser virtudes em outros, é mais fácil estereotipar pessoas ou grupos, notadamente os adversários, do que categorizar aliados reconhecidamente de origem e conduta duvidosas. É aquela velha tese filosófica de que, às vezes, as paixões tiranizam a razão.
Parafraseando o saudoso governador Mário Covas, quem tem ética no Brasil parece anormal. Último país a acabar com a escravidão, o Brasil, conforme Darcy Ribeiro, tem uma perversidade intrínseca em sua herança. É isso que ainda torna a classe dominante enferma de desigualdade e de descaso. Por isso, endosso a tese, também filosófica, de que a prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento. O Brasil lutou muito para se tornar um país democrático. E continua lutando muito para se tornar um país mais justo. Só tornaremos isso realidade se fortalecermos a democracia. Portanto, votar bem é um ato de bravura e de luta pela soberania do povo.
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

