Estranho, mas compreensível entre os que se acham eternos, o desejo incontrolável de poder transita entre a filosofia, a psicologia e a sociologia, aparecendo como um dos impulsos mais debatidos sobre a natureza humana. O conceito mais famoso a respeito do tema foi desenvolvido pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, para quem a vontade de potência não se resume a uma simples ambição política ou ao desejo de tiranizar os outros. Na prática existencial, nada mais é do que a busca da sobrevivência.
Diante de apenas ser, a intensidade do ter se manifesta de numerosas formas, algumas sob a fantasia da obrigação da superioridade: é o artista que cria sem parar, o cientista que dorme e acorda procurando a verdade, o atleta que morre superando tentado superar seus limites ou o indivíduo que vende a alma para marcar sua existência. Ou seja, o apetite desmedido por poder muitas vezes nasce de inseguranças profundas, servindo como uma compensação frágil para o medo da irrelevância ou da vulnerabilidade.
Inquestionavelmente, o mais perigoso é o poder político, cujos líderes, além de ameaças e mentiras descabidas, podem recorrer a meios escusos, entre eles a força, para garantir obediências às suas normas. É aquela velha, célebre e atualíssima frase de Nicolau Maquiavel: “Dê poder ao homem e descobrirá quem ele realmente é”. Na história, o exercício absoluto do poder frequentemente flerta com a tirania e com o delirium tremens. Nos tempos modernos, a psiquiatria é a ferramenta mais confiável para definir, politicamente, que é “são” ou “anormal”.
Figuras dos antigos impérios europeus exemplificam como a soberania ilimitada pode se misturar à megalomania, à crueldade e à ruína moral, transformando governos em um verdadeiro espetáculo de terror e tragédia. Mentir que vivemos tudo isso em um passado bem recente é assumir que a inversão de valores do mundo e os de Deus é apenas um detalhe capaz de desafiar a lógica dos homens de bem. Didaticamente, é o mesmo que associar a loucura política a estereótipos psiquiátricos e culturais.
São os que se veem como a reencarnação de Napoleão Bonaparte, transformado em arquétipo clássico da psiquiatria e do imaginário popular para definir alguém com delírios de onipotência ou de soberania. Associada à loucura de poder, a ambição é frequentemente descrita por pensadores contemporâneos como uma espécie de “embriaguez de poder” ou perda do senso de realidade. Guardadas as devidas proporções, com todo respeito ao ser humano, esse parece ser o caso do candidato derrotado na última eleição presidencial do Brasil.
Como explicar aos historiadores de plantão que alguém com mais de 60 milhões de votos tenha optado por fugir do país e, um dia e meio após o resultado, adotar o mesmo tom golpista do patriarca do clã. Inimigo declarado do sistema democrático de governo, ele, antes de se autoproclamar presidente eleito, deveria ter sido informado que, em uma democracia consolidada, o título de cidadão é muito mais importante do que o de presidente da República. Tá todo mundo louco? Nem todos.
Tanto que a maioria do eleitorado nacional preferiu “premiar” Luiz Inácio Lula da Silva com mais um mandato, o quarto de sua longa carreira política. Loucura, sonhos e expectativas à parte, a realidade é objetiva para um e outro lado. Obrigatoriamente e provavelmente com louvor, Lula encerrará sua carreira de presidente em 2030. Quanto a seus adversários, fugitivos em decorrência de graves pendências judiciais, o esgotamento supostamente prematuro ocorreu exatamente quando a submissão a uma corrente ideológica estava a ponto de explodir. Embora velha, mas não ultrapassada, a outra terá mais quatro anos para formar sucessores. À esquerda e à direita, quem se habilita?
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

