Hora de colocar os pingos nos is sem vestir camisa de nenhum candidato

Redação
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José Seabra - Foto produzida pela Editoria de Imagens, com uso da IA

Em período eleitoral, quando paixões tentam transformar redações em comitês e jornalistas em cabos eleitorais, reafirmamos um princípio que atravessa nossa história. Em Notibras, todas as vozes podem entrar pela porta da frente, mas nenhuma delas recebe a chave da redação.

Há épocas em que fazer jornalismo é como atravessar uma praça em dia de tempestade, com gritos, cobranças, aplausos, insultos e dedos apontados de todos os lados. Um desses períodos é a temporada eleitoral é uma delas. É o momento em que o eleitor escolhe candidato, militante levanta bandeira, partido define palanque e jornalismo escolhe perguntar.

É exatamente aí que Notibras permanece. Informando, mas mantendo o seu direito de interpretar a notícia.

Nascemos em Brasília, no fim do século passado, quando a internet brasileira ainda aprendia a caminhar. Desde então, assistimos à passagem de presidentes, governadores, ministros, senadores, deputados, poderosos e candidatos que pareciam eternos, até descobrirem que a política também conhece a porta de saída.

O jornal virtual permanece no ar, porque instituições jornalísticas não podem ter a duração de um mandato nem trocar de princípios conforme muda o ocupante de um gabinete.

Em uma eleição, haverá candidatos de direita, de esquerda, de centro e daqueles que preferem não dizer exatamente onde estão. Também existirão conservadores, progressistas, liberais e personagens que atravessam essas fronteiras conforme as circunstâncias políticas. Todos são notícia, e nenhum é dono dela.

Notibras manterá seu espaço editorial aberto a entrevistas, opiniões, críticas, contrapontos e informações de interesse público. Isso não significa apoio. Uma reportagem crítica não é sinônimo de perseguição, como uma fotografia não será declaração de voto, uma entrevista não será adesão e publicar a versão de um adversário não transformará ninguém em inimigo.

Tudo isso parece óbvio, mas em tempos de radicalização, o óbvio precisa ser escrito em letras grandes. No universo onde transita a comunicação, existe uma tentação perigosa de medir a independência de um veículo pelo critério do “se publicou aquilo de que gosto, é jornalismo; se publicou aquilo de que não gosto, vendeu-se ao outro lado.”

Recusamos essa aritmética por ser totalmente falsa. Nosso compromisso não é fazer carinho em candidato, tampouco produzir pauladas por encomenda. Parafraseando a Folha de S.Paulo de outrora, nosso compromisso é com o leitor, com quem temos, sim, o rabo preso.

Em outras palavras, candidatos poderão receber elogios quando seus atos justificarem uma análise positiva e críticas quando seus gestos merecerem escrutínio. Implica observar também que aquilo que dissermos hoje sobre determinado personagem político não compra nosso silêncio amanhã.

Notibras não emite certificado de santidade nem escritura de propriedade sobre a verdade. Se erramos, corrigimos; se há outra versão relevante, publicamos; existem documentos, examinamos. Essa mesma linha é seguida quando apuramos eventuais denúncias; quando abrimos espaço para respostas, porque o contraditório é parte do jornalismo; e, ainda, se há mentira, cabe-nos confrontá-la com fatos.

Pluralidade não significa colocar verdade e falsidade na mesma balança e fingir que pesam igualmente. Também não cabe transformar uma redação numa assembleia em que toda afirmação, por mais absurda que seja, conquiste automaticamente o mesmo valor.

Pluralidade significa ouvir diferentes lados sem entregar a nenhum deles o controle da pauta. Esse é o ponto mais importante, quando são colocados os respectivos pingos nos is.

Notibras não pretende dizer ao eleitor em quem votar, porque nossa tarefa é oferecer informação, contexto e interpretação para que ele próprio decida. Entendemos que a urna e a consciência pertencem ao cidadão. Contudo, da independência editorial, não abrimos mão.

Em nossa caminhada, adotamos como princípio “A interpretação da notícia”. Interpretar, para nós, nunca foi torcer. É procurar o que existe atrás da cortina, observar aquilo que a declaração oficial tenta esconder, contextualizar números, confrontar discursos e perguntar quem ganha, quem perde e quem paga a conta.

Às vezes, essa interpretação incomoda a terceiros, mas não nos aflige, porque imprensa feita apenas para agradar deixa de ser jornalismo e começa a procurar outro nome.

Certamente continuaremos a receber elogios de quem se sentir contemplado por determinada publicação, e críticas das mesmas pessoas quando a reportagem seguinte contrariar seus interesses. Isso faz parte do ofício. Mesmo porque, não colecionamos aplausos, mas perguntas. Essa é uma boa maneira de explicar o jornalismo plural que praticamos, particularmente nesta eleição. As portas continuam abertas para todos; os cofres da independência editorial, para ninguém.

Não temos candidato ou adversário de estimação. Temos notícia, sempre acompanhada, quando necessário, com interpretação, ironia, crítica e aquela velha lupa que jornalistas de cabelos já prateados aprenderam a carregar depois de tantos anos percorrendo corredores acarpetados do poder.

Nunca será tarde lembrar que governos passam, mandatos terminam, ídolos eleitorais envelhecem e palácios trocam seus inquilinos. A notícia, porém, continua batendo à porta. E enquanto ela bater, Notibras estará aqui para abri-la, sem perguntar primeiro qual é o partido de quem tocou a campainha.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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