Como o Labrador foi de ajudante de pescador a herói dos nossos lares

Eduardo Martínez
8 minutos de leitura
Leonardo Bernar - Foto Francisco Filipino

Se existe uma criatura no planeta capaz de derreter o coração mais gelado com apenas um olhar e uma batida de cauda, essa criatura é o Labrador retriever. Conhecido por seu carisma inabalável, esse pet não ganhou o topo do ranking de popularidade mundial por acaso. Atrás daquela carinha pidona e cheia de energia, esconde-se uma história fascinante de superação, inteligência e uma conexão profunda com o ser humano que já dura séculos.

A jornada desse gigante dócil começou bem longe dos sofás confortáveis de hoje. Seus primeiros ancestrais surgiram no litoral da gelada província de Terra Nova e Labrador, no Canadá, fruto de cruzamentos entre cachorros de pescadores locais. Naquela época, o parente mais próximo da raça era conhecido como Cão de São João — uma carinhosa homenagem à capital da região —, um animal destemido que passava os dias mergulhando nas águas congelantes do Atlântico.

A rotina desses pioneiros caninos não era nada fácil, mas eles mostravam uma disposição invejável. Esses animais ajudavam os pescadores puxando redes pesadas e mergulhando atrás de bacalhaus que escapavam dos anzóis, além de auxiliar em qualquer tarefa que exigisse um bom nadador. Curiosamente, a palavra “Labrador” carrega as marcas dessa exploração, derivando do navegador português João Fernandes Lavrador, que desbravou o território canadense ainda no século XV.

No início do século XIX, as habilidades extraordinárias de nado e mergulho desses animais chamaram a atenção de nobres ingleses que visitavam a região, como o Conde de Malmesbury. Encantados com o potencial daqueles bichos para a caça de aves aquáticas, alguns criadores decidiram levar vários exemplares para a Grã-Bretanha. Foi em solo britânico que a raça foi oficialmente desenvolvida, cruzando os cães originais com outros tipos de retrievers — termo inglês que significa, literalmente, “aquele que recupera ou busca”.

Enquanto a raça ganhava fama na Europa como uma extraordinária buscadora de caças, o destino pregava uma peça em sua terra natal. Devido a impostos pesadíssimos sobre os cães no Canadá, o Labrador original acabou desaparecendo de sua região de origem. A sobrevivência da linhagem dependeu inteiramente dos animais protegidos na Inglaterra, onde o pet inteligente ganhou o coração de figuras ilustres, incluindo o Rei Jorge VI, que se tornou um grande apaixonado pela raça e a levava para suas caçadas reais.

A evolução estética do Labrador também passou por critérios rígidos que hoje pareceriam estranhos. No início de 1900, os criadores davam preferência absoluta aos cães de pelagem preta, chegando a sacrificar os filhotes que nasciam nas cores amarela ou chocolate. Felizmente, com a virada do século XX, as outras tonalidades começaram a ser aceitas e celebradas, abrindo espaço para o registro de Ben of Hyde em 1899, o primeiro Labrador amarelo documentado no mundo.

Após ser reconhecida oficialmente pelo English Kennel Club em 1903 e pelo American Kennel Club (AKC) em 1917, a raça retornou com força total à América, desta vez desembarcando nos Estados Unidos. O sucesso foi avassalador: em 1991, ele se tornou o cão mais popular do território americano. A liderança se transformou em um reinado absoluto quando, em 2015, o Labrador completou impressionantes 25 anos consecutivos no topo do ranking do AKC, uma prova de seu apelo universal.

A grande virada na funcionalidade do Labrador aconteceu por volta da década de 1950, quando ele deixou de ser visto apenas como um trabalhador rural ou de caça. As famílias perceberam que sua personalidade eternamente juvenil, sua tolerância com crianças e sua necessidade constante de brincar o tornavam o cão de companhia perfeito. Seu corpo robusto — com machos medindo entre 56 e 57 centímetros e pesando até 40 quilos — guarda um coração de ouro e uma paciência que parece não ter fim.

Parte do segredo do sucesso do Labrador na água vem de sua anatomia perfeitamente desenhada para os desafios aquáticos. Ele possui uma pelagem dupla, grossa e impermeável, capaz de protegê-lo do frio por horas. Além disso, sua famosa “cauda de lontra”, espessa na base e fina na ponta, funciona como um leme poderoso dentro d’água. Outra característica fascinante é a chamada “boca macia”, uma habilidade natural incrível de segurar objetos delicados, como um ovo ou uma presa, sem causar o menor dano.

Por outro lado, quem tem um Labrador em casa conhece bem seu calcanhar de Aquiles: a fome constante. A ciência descobriu que esses cães possuem uma mutação genética no gene POMC, responsável por regular o apetite. Na prática, isso significa que eles raramente sentem saciedade e são capazes de comer sem parar, o que exige um controle rigoroso de peso por parte dos tutores para evitar problemas como a obesidade.

A inteligência e o temperamento dócil transformaram esses animais em verdadeiros heróis do cotidiano moderno. Facilmente adestráveis, eles deixaram de ser apenas pets de estimação para assumir papéis vitais na sociedade como cães-guia para deficientes visuais, terapeutas em hospitais e membros das forças policiais e militares, atuando no resgate de vítimas em desastres e no faro de narcóticos e explosivos.

Essa doçura e carisma inabaláveis carimbaram o passaporte do Labrador direto para a cultura popular mundial. Quem não se emocionou com as travessuras do inesquecível Marley, do livro e filme Marley & Eu, que impulsionou a popularidade da raça nos anos 2000? O sucesso também atravessou oceanos, virando personagem alegre na animação Bojack Horseman com o carismático Sr. Peanutbutter, e até batizando a canção pop Labrador Retriever do grupo japonês AKB48, cujo clipe foi um fenômeno de vendas.

A identificação com a raça é tão natural que transcende o mundo animal. Durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, o ex-tenista brasileiro Gustavo Kuerten, o Guga, conquistou as redes sociais e recebeu dos internautas o apelido carinhoso de “Labrador Humano”, graças ao seu sorriso constante e simpatia contagiante. No fim das contas, seja ajudando um pescador no Atlântico no século passado ou enchendo uma sala de estar de alegria hoje, o Labrador prova que sua verdadeira especialidade sempre foi resgatar o melhor do ser humano.

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Instagram: @leoobernar

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