Durante a campanha eleitoral comentei com minha filha Julia, com quem converso sempre sobre minhas experiencias de vida: se o Lula ganhar, estou curioso quanto ao que fará com relação a Javier Milei, depois dos ataques que o presidente ‘hermano’ dirigiu ao vizinho brasileiro? Lula ganhou, e agora faço reflexões sobre essa pergunta. O que pode acontecer?
Fui repórter especializado em política externa brasileira durante mais de 15 anos, credenciado pela Folha de S.Paulo junto ao Itamaraty. E sempre observei como a diplomacia enfrentou crises no relacionamento com outros países, com base, sempre, em princípios estabelecidos na defesa dos interesses nacionais.
Lembro-me de vários exemplos, como as dificuldades com os Estados Unidos, contrários à política nuclear no Brasil, que permitisse a utilização do uranio para fins pacíficos. Também quando barcos pesqueiros, especialmente os japoneses, vinham às costas brasileiras para a pesca indiscriminada de lagosta.
Foi dessa “guerra da lagosta” que surgiu o mar patrimonial brasileiro de 200 milhas, permitindo a ampliação da exploração de petróleo no fundo do mar, e de onde surgem indícios da existência de minerais raros, incutidos em nossa plataforma marítima.
Tudo isso sem contar a habilidade diplomática – que atravessou governos – no enfrentamento das posições argentinas contrárias à construção da Usina de Itaipu… até mesmo durante a Guerra das Malvinas, quando o Brasil se equilibrou entre os interesses brasileiros com o seu vizinho e os interesses em relação à Inglaterra.
No meio disso tudo eu informava Brasília do que se passava no front argentino, como correspondente para a cobertura do conflito.
Voltando à questão Javier-Lula, renovo que as relações com a Argentina sempre foram sensíveis e exigiu muito de nossa diplomacia. Mas nunca um presidente de qualquer dos dois países fez o que fez Javier Milei: ofender o chefe de Estado do Brasil repetidamente, desde Buenos Aires ou mesmo em Madri.
As reações diplomáticas brasileiras foram tomadas na primeira vez, com protesto formal e o consequente rebaixamento das relações entre os dois países, paralelamente à retirada do embaixador brasileiro cm Buenos Aires.
O problema das agressões, que continuam, deixa a plataforma diplomática e coloca Lula no comando direto do que poderá acontecer. Os indícios dessa nova etapa já começaram, pois o governante argentino não cumprimentou Lula pela reeleição e já se especula se Milei vai “engrossar” o coro de Flávio Bolsonaro, seu amigo, e afirmar que as eleições devem ser anuladas?
Do lado brasileiro, algumas perguntas estão no horizonte das relações com Buenos Aires: o Brasil convidará para a posse? Poderá ser decretado um tarifaço sobre produtos importados da Argentina, a partir de uma análise mais rigorosa das regras do Mercosul?
As respostas somente surgirão no futuro próximo, mais precisamente a partir de janeiro, quando Lula subirá pela quarta vez a rampa do Palácio do Planalto.
Caberia, aqui, também refletir sobre a reeleição de Lula à luz das relações com os Estados Unidos. Que o leitor me perdoe, mas, no momento, prefiro aguardar as eleições norte-americanas de 3 de novembro, quando se verificará se Donald Trump perdeu ou não sua maioria no Congresso. Se perder, o que acontecerá na política interna e externa trumpista, inclusive nas relações com o Brasil?
Vamos aguardar.
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Flávio Almeida Salles tem no currículo o recheio do jornalista e do advogado.

