A vergonha chamada política brasileira alcançou um paralelo inusitado e jamais imaginado. Atolado no extremismo de alguns de seus representantes, o Supremo Tribunal Federal deverá ter o mesmo fim de Policarpo Quaresma, personagem criado em 1915 por Lima Barreto. De pretensos salvadores da Pátria e de supostos “voluntários” para a moderação de conflitos, os ministros da mais alta Corte do país viraram chacota.
Travestidos de patriotas cegos e raivosos, alguns se desfizeram da toga e, a exemplo de Policarpo, se transformaram em abusadores de tanto criticarem os abusos de poder do Estado. Por essa e outras, o desgaste do STF perante a opinião pública parece irreversível. Pior tem sido a disputa interna pelo poder e a primazia na defesa dos malfeitos de padrinhos políticos, alguns potenciais candidatos à Presidência da República
O mal-estar cívico gerado pelos integrantes da própria Corte não envergonhou apenas os ministros que, aproveitando uma longa e triste sessão pública, preferiram a autodefesa à suspensão da entediante e insular comédia pastelão encenada pelas excelências de cargos e salários vitalícios. Com o caos instalado no Supremo, hoje é quase impossível alguém identificar qual o ministro que julga sem se ater ao viés político-eleitoral.
Nos últimos dias, as decisões do tipo gambiarras de uns contrariando as gambiarras de outros confundiram o povo, notadamente o eleitor, que já não sabe mais quais são os limites de atuação do STF e do TSE. Carcomido por dentro e por fora, o problema maior é a notória preocupação de alguns com a blindagem de parceiros ideológicos ou apenas de bancada, a principal razão pelo desmoronamento quase absoluto da Corte.
O resultado das ações infanticidas dos meninos mimados do Supremo Tribunal não poderia ser outro. A reforma do Poder Judiciário deve alcançar os intestinos do STF. Entre as propostas que já tramitam no Congresso Nacional, algumas sugerem alterações no tempo de permanência dos ministros, mecanismos de controle do excesso de decisões monocráticas e sobre a atuação dos togados, além de novas regras para escolha dos integrantes da Corte e a possibilidade de processos administrativos disciplinares contra os de má conduta.
Como cidadão correto e com risco concreto de ser julgado pelo STF caso deixe de pagar a conta de luz, de telefone ou do jazigo perpétuo, eu também declaro publicamente meu estado “de profunda consternação e tristeza” diante das mazelas produzidas pelas dignas excelências. Pelo andar da carruagem dos senhores de toga, no dia em que sua santidade, o ministro Edson Fachin, decidir pautar o novo imbróglio envolvendo a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, Flávio Dino e Luiz Fux o ex-sisudo e austero plenário da Corte será novamente transformado em um ringue de boxe, muay thai, jiu-jitsu ou taekwondo.
Convocados para a peleja adiada de hoje (30) para o dia de São Nunca, os juízes de fora prometem punir com o máximo rigor (?) da lei puxões de cabelo, de apliques e de fios que conduzam os magistrados travestidos de causídicos à indefensável cabeleira de Daniel Vorcaro. Causa da estúpida e nada republicana contenda, a ordem antecipada é para que Nossa Senhora Aparecida, elevada à condição de “ré” no STF, se finja de morta, circule pelo plenário com armadura ou exija a proteção do cabo e do soldado que sorrateiramente ainda rondam as dependências do Tribunal. Resta ao povo da planície rogar para que Deus interceda em favor do povo que torce para que domingo (04) seja eleito um presidente capaz de governar para todos.
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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras

