Seja quem vença, o momento deve ser de coesão, e não de rupturas

Redação
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Heliodoro Quaresma - Foto Marcelo Camargo

Três dias depois da conclusão das urnas, o clima entre os que se sentiram derrotados no último domingo eleitoral ainda é de velório e de desesperança. Para os que, como vencedores, soltaram foguetes e larvas de ódio, a fase é de incertezas com os próprios rumos, notadamente com os do país. Para quem está de fora, se absteve de votar e, principalmente, para os que torcem e vibram pelo Brasil, a preocupação é com a democracia e com a possibilidade de a maldição da polarização partidária alcançar o futuro governo.

Seja quem for o vencedor do segundo turno, não devemos avaliar o regime democrático como o poder nas mãos de uma maioria incompetente ou, como disse o dramaturgo inglês George Bernard Shaw, apenas a substituição de alguns supostos corruptos por muitos incompetentes. Baseado em reflexões inspiradas no ex-premiê britânico Winston Churchill e no pensador brasileiro Leandro Karnal, prefiro a tese de que a democracia é o pior dos sistemas, com exceção de todos os outros. Ela serve para impedir que o inferno se instale entre nós.

Na hipótese mais temerária (?), a democracia garante ao povo a última palavra sobre eleições parlamentares e presidenciais. A desse domingo (04) é a prova de que, certos para um e equivocadíssima para outros, foram os eleitores que deram ao candidato da extrema-direita a folgada vitória do primeiro turno. Coincidentemente sem receber crítica alguma de seus contumazes e históricos detratores, é a urna eletrônica a responsável final pela escolha do presidente da República. Foi assim em 2026 e será assim em 2030.

À máquina de votar não cabe nada além de mostrar ao mundo que a decisão do eleitor foi nesse ou naquele sentido. É dos formadores de opinião, comentaristas da TV Globo e, sobretudo, dos dirigentes e líderes partidários a obrigação de, junto com o eleito, trabalhar pela unificação do país. Não é uma tarefa fácil, na medida em que foram eles mesmos que, ao longo da campanha, ajudaram a polarizar o debate, consequentemente a dividir famílias, acabar com amizades de décadas e a rachar uma nação que nunca foi igualitária, mas sempre conviveu.

Mesmo com a eleição ainda por ser concluída, as feridas são numerosas. Algumas irreversíveis. Outras de cicatrização complicada. Nada, porém, que não possa ser amenizado com doses de tolerância, acenos de convergência política, ações conjuntas e discursos de paz antes, durante e após a consolidação do resultado. Em lugar dos pedidos de vingança contra autoridades e contra os eleitores que votaram no adversário, o momento é de coesão. Será uma estupidez manter o Brasil dividido até 2020, 2036 e 2050.

Seja de direita ou de esquerda, se tornará grande e reconhecido, nacional e mundialmente, o governante que optar por um governo de todos e não apenas para progressistas ou conservadores. Com maioria absoluta de parlamentares de direita a partir de fevereiro de 2027, o Congresso Nacional terá papel de altíssima relevância nessa empreitada. Apostar em propostas vingativas ou de exclusão de benefícios aos que supostamente não os apoiaram é manter na prateleira de cima o título de eleitos para defender, além do próprio umbigo, a mesa e o bolso de seus mantenedores.

Ainda que determinados grupos de brasileiros não gostem de outros agrupamentos de brasileiros, os brasileiros que administrarão o Brasil de 2027 precisam ter consciência de que, no sistema democrático, todos pagam impostos e, portanto, todos têm direito às mesmas oportunidades. Por isso, a menos que o próximo presidente da República seja contrário à democracia, deve caber aos brasileiros do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste a decisão a respeito do país que desejam até a próxima eleição. O Brasil não é da direita, da esquerda, tampouco da extrema-direita. Ele é de todos. Fica a dica.

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