Hoje, apesar de liberado do voto obrigatório, preservo o hábito de votar como minha principal arma contra os políticos que, mais do que servidores do povo, se acham celebridades. Voto principalmente para evitar que a política seja o esconderijo dos piores e não lugar dos melhores. Com a consciência inegociável, atualmente tomo mais cerveja e menos remédios. Por isso, evocando todos os meus direitos constitucionais, sobretudo o da liberdade de expressão (?), concordo, em parte, com a máxima dos mais antigos, para os quais naquele tempo tudo era melhor. Nem tudo!
É verdade que não tínhamos as bets, mas o jogo do bicho era visto pela elite da época como empobrecedor de pessoas remediadas. Os jogadores ganhavam pouco, mas os banqueiros enchiam a burra. No futebol, sobravam craques e faltavam adversários à nossa altura. Hoje, nivelado por baixo, o esporte bretão é um celeiro de pernas de pau. Carlos Ancelotti que o diga. Boa também foi a música brasileira, com destaque para as fornadas de belas e bem-feitas canções da Bossa Nova, da Jovem Guarda, da MPB e do rock dos anos 50, 60, 70 e 80. Depois disso, só saudosismo.
Nada contra o emburrecimento musical da população brasileira dos anos 2000. Nada contra! Só me recuso a ouvir o que não presta. Perdemos as radiolas, os bolachões, os CDs e DVDs. Hoje, mesmo entre os mais jovens, vale playlists com músicas velhas. Também perdemos as virgens, as carolas e os inferninhos, outrora conhecidos por parquinhos de diversões dos que não podiam frequentar os lupanares de grã-finos. Com todas as ressalvas, bons tempos aqueles que se foram. Nem tudo era melhor. Dirão que tínhamos qualidade de vida.
Talvez políticos de qualidade. Quem sabe as duas coisas. Pode ser. O que poucos lembram é que vivíamos tão pouco que muitos sequer tiveram oportunidade de experimentar as qualidades da vida que tivemos e de conhecer políticos sérios, os que não pensavam e, por isso, tinham no caderninho de cabeceira a informação de que os eleitores existiam mesmo fora do período eleitoral. Hoje eles pensam. Daí a certeza de que só existimos em época de eleições.
Não preciso mais votar, mas mantenho firme a vontade de viver, de não ter vergonha de ser feliz, tampouco de assumir a beleza de um eterno aprendiz e votar naqueles que pensam no povo e defendem o trabalhador. Dizem que sou um idiota por votar em candidatos progressistas. Esse tipo de pensamento me dá o direito de devolver o adjetivo àqueles que promovem discursos de ódio e que disseminam as mesmas atitudes grosseiras de seus escolhidos. Embora mantenha o sofrimento e o desgosto com os políticos deste tempo, sei que é preciso amar as pessoas como se não houvesse eleições.
Desse modo, certo ou errado, entendo que, mesmo exigindo atenção redobrada da consciência, é prerrogativa exclusiva do eleitor do Norte, do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste e do Nordeste eleger seu malvado preferido. Portanto, cada um vote conforme a sua verdade. A minha é a democracia, sistema que garante a todo homem o respeito e nunca a veneração. Político não é celebridade para ser idolatrado, assim como mandato não é camarote. Antes de terceirizar sua consciência política para influencer, pastor, artista, empresário, jogador de futebol ou grupo de Whats App, antes procure saber se a celebridade é capaz de exercer o cargo.


É Lula.