Xandão pode ter errado, mas como quem não deve não teme, e muito menos foge

Redação
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Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Como qualquer segmento social que respeita para ser respeitado, a chamada direita moderada não apoiou as últimas sandices do senador Flávio Bolsonaro, candidato derrotado à Presidência da República, que, pouco depois do anúncio oficial da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, preferiu fugir a se defender no Supremo Tribunal Federal. Na Corte, ele é alvo de três inquéritos, um deles, o que apura movimentações financeiras milionárias e suspeitas de ocultação de bens em associação com o advogado Willer Tomaz, é da relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Os outros dois têm como relatores os ministros André Mendonça e Kássio Nunes Marques. O que está sob a responsabilidade de Mendonça investiga suspeitas de irregularidades, corrupção e lavagem de dinheiro no repasse de recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme Dark Horse. Nunes Marques apura postagens do senador atribuindo a Lula crimes como tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Como se vê, o currículo federal de Flávio não é dos mais abonadores.

Há políticos da direita e da esquerda com folhas corridas muito mais consistentes e graves. A diferença é que eles não disputaram a Presidência da República com o discurso da plena e absoluta honestidade, não fugiram com a derrota e, principalmente, se calaram diante dos fatos. Flávio Bolsonaro deveria ter feito o mesmo. Seria muito mais fácil que, em lugar de dúvidas inconsistentes e de ameaças infantis contra o resultado eleitoral e contra a chapa vencedora, reconhecesse a vitória do adversário e se recolhesse à sua insipiência.

Foi justamente a manifesta imprudência política do candidato, provavelmente gerada pela ausência de juízo e de sensatez, a motivação da contestada e criticada decisão de Alexandre de Moraes. Com uma única canetada, Moraes, que sobrevive em meio a fortes pressões políticas e institucionais, determinou o cancelamento de todos os passaportes de Flávio Bolsonaro e proibiu o senador de deixar o país. É verdade que o ministro do STF e a Polícia Federal jogaram gasolina “em uma fogueira que estava diminuindo de intensidade”.

Entretanto, baseado na máxima de que quem não deve não teme e, portanto, não foge, endosso todas as teses de que a fuga significou um atestado de culpa. Mesmo considerando açodado o veredito do ex-xerife Xandão, certamente numerosos aliados tentaram, em vão, desestimular o candidato derrotado da intenção “suicida”. Pior do que fuga às escondidas e com ajuda de um desafeto político de Lula, só a carta golpista escrita já em solo norte-americano e provavelmente remendada a pedido de seu anfitrião, o presidente Donald Trump.

Se autoproclamar presidente eleito do Brasil após uma acachapante derrota foi, no mínimo, um tiro no pé. O problema é que, além de parte do pessoal da direita que topou formar com ele na corrida presidencial, os estilhaços do desatinado e tresloucado torpedo atingiram em cheio o clã Bolsonaro, cuja trajetória política rumo ao Palácio do Planalto parece definitivamente encerrada. Expoentes do conservadorismo sem radicalismos se preparam para assumir o espólio com vistas a 2030.

Só para ilustrar, não à toa Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo reeleito, foi um dos primeiros a reconhecer a vitória de Lula. Não é nada, não é nada, mas muitos avaliam o gesto como o do jabuti colocando a cabeça e o pescoço para fora do casco, de modo a começar a assuntar o futuro. Exagero? Claro que não! Afinal, se não for ele, quem será o escolhido? Um doce para quem acertar.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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