O Maracanã vestiu vermelho e preto, mas quem deu a última palavra falou espanhol. Na noite desta quinta-feira, 22, o Estudiantes de La Plata transformou o templo do futebol brasileiro em uma sala de aula, onde disciplina tática, inteligência e sangue-frio foram as principais matérias. Do outro lado, um Flamengo milionário, cercado de estrelas e empurrado por sua torcida, descobriu que camisa pesada não ganha jogo sozinha. Depois de outro empate sem gols, os argentinos venceram por 3 a 2 nos pênaltis, eliminaram o Rubro-Negro e carimbaram o passaporte para enfrentar o Palmeiras na grande final da Copa Libertadores da América.
Foi uma lição daquelas que não aparecem nos livros, mas ficam gravadas na memória dos torcedores. O Estudiantes não precisou de espetáculo, malabarismos ou posse de bola interminável. Precisou apenas compreender que futebol também se ganha com organização, resistência e capacidade de explorar a ansiedade adversária. E, nesse particular, os argentinos foram professores diante de um Flamengo que parecia ter esquecido a cartilha do futebol decisivo.
O primeiro tempo já oferecia sinais de que a noite seria mais complicada do que imaginavam os rubro-negros. Aos 15 e 16 minutos, o goleiro Rossi precisou trabalhar para impedir que os visitantes abrissem o placar. Enquanto os argentinos demonstravam personalidade, o Flamengo esbarrava na marcação adversária, incapaz de transformar sua superioridade técnica em oportunidades realmente perigosas.
A situação parecia encaminhar-se para uma vitória brasileira quando Baltasar Rodríguez recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso aos quatro minutos da etapa final. Com um jogador a mais e o apoio das arquibancadas, o Flamengo tinha praticamente todo o cenário a seu favor. Faltou, porém, o principal: futebol capaz de desmontar a muralha argentina.
O técnico Alexander Medina reorganizou sua equipe, fechou os espaços e transformou a inferioridade numérica em demonstração de resistência. O Flamengo passou a controlar a bola, mas não o jogo. Atacava, recuava, cruzava e tentava novamente, sem encontrar o caminho das redes. A posse de bola, tão valorizada nas estatísticas modernas, virou um número bonito para uma atuação sem brilho.
Lucas Paquetá ainda encontrou Plata em boa condição, mas o goleiro Fernando Muslera apareceu para salvar os argentinos. Pouco depois, o próprio Paquetá cabeceou rente à trave. Foram lampejos insuficientes para evitar que a decisão seguisse para a marca da cal.
E foi nos pênaltis que a aula argentina ganhou seu capítulo mais cruel para os brasileiros. Muslera, experiente e seguro, defendeu as cobranças de Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique. Três nomes de peso, três oportunidades desperdiçadas e um sonho continental reduzido a cinzas. O Estudiantes também errou uma cobrança, com Cetré, mas converteu o suficiente para fechar a disputa em 3 a 2.
O resultado expôs uma verdade que o futebol insiste em repetir: dinheiro compra jogadores, estrutura e prestígio, mas não garante coragem, inspiração ou eficiência nas horas decisivas. O Flamengo tinha o estádio, a torcida, a vantagem numérica e um elenco recheado de talentos. O Estudiantes tinha um plano. E foi esse plano que prevaleceu.
Agora, a Libertadores terá uma decisão entre Brasil e Argentina. O Palmeiras, que eliminou o Fluminense também nos pênaltis, enfrentará o Estudiantes no dia 28 de novembro, no histórico Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai. O Verdão buscará seu quarto título continental, enquanto os argentinos tentarão conquistar a quinta taça de sua história.
Para o Flamengo, resta recolher os pedaços da frustração e voltar as atenções ao Campeonato Brasileiro, competição que lidera com 67 pontos, apenas um à frente do Palmeiras. A eliminação também deixa questionamentos sobre a capacidade de reação do time de Leonardo Jardim em confrontos de alta pressão.
O Maracanã, acostumado a noites de glória, terminou como testemunha de uma derrota dolorosa. Não houve goleada, nem baile de dribles ou uma avalanche de gols argentinos. Houve algo talvez ainda mais constrangedor: um adversário com dez jogadores durante quase metade da partida, capaz de neutralizar onze brasileiros e vencer quando chegou a hora de decidir.
No boletim dessa quinta-feira, o Estudiantes saiu aprovado com louvor. O Flamengo, apesar de todo o investimento, ficou em recuperação. E o Palmeiras, que acompanhou de longe a lição aplicada pelos argentinos, já sabe que encontrará em Montevidéu um adversário que não precisa jogar bonito para ser perigosíssimo.

