Frutas, pescados, folhas, ervas e combinações agridoces transformam os dias mais quentes em convite para uma cozinha leve, colorida e essencialmente brasileira
A primavera não chega apenas aos jardins. Ela invade a cozinha, colore os pratos, perfuma a mesa e muda até a disposição do paladar. Depois dos sabores mais encorpados do inverno, a estação das flores pede licença para servir frescor.
E poucos países têm tanto a colocar nessa mesa quanto o Brasil. Manga, abacaxi, maracujá, morango e outras frutas encontram folhas, ervas, peixes, camarões e legumes para formar pratos nos quais a cor é quase tão importante quanto o sabor. A própria sazonalidade favorece essa mudança: frutas, verduras e legumes ganham protagonismo, enquanto preparações mais leves e rápidas passam a combinar melhor com a elevação das temperaturas.
É quando a velha salada deixa de ser coadjuvante. Rúcula pode receber manga e castanhas. Folhas verdes encontram morangos, queijo e molhos cítricos. O camarão pode dividir o prato com abacaxi. Peixes grelhados ganham a companhia de legumes, ervas e gotas de limão.
E há o ceviche. Fresco, cítrico e colorido, ele parece ter sido inventado para uma tarde de primavera, ainda que sua origem esteja muito além das fronteiras brasileiras. A cozinha tropical também brinca com os contrastes. O doce da manga conversa com a acidez do limão; a delicadeza do peixe recebe a força do coentro; o abacaxi pode sair da sobremesa e aparecer grelhado ao lado de carnes; o maracujá abandona a jarra de suco para virar molho.
É uma gastronomia que permite ousadia sem necessariamente exigir complicação. A tendência observada nos cardápios da estação vai justamente nessa direção: mais pescados, vegetais, frutas e ervas frescas, sem que “comida leve” seja sinônimo de uma solitária folha de alface no centro do prato. Ceviches, carpaccios, grelhados e até risotos com notas cítricas cabem perfeitamente nessa cozinha primaveril.
Há ainda uma vantagem irresistível: pratos tropicais são bonitos. O verde das folhas, o amarelo da manga, o vermelho do morango, o alaranjado do camarão e o roxo de determinados legumes transformam a louça numa espécie de jardim comestível. Não por acaso, a gastronomia contemporânea presta cada vez mais atenção à apresentação. Na primavera, a natureza praticamente faz metade do trabalho.
Mas a estação também traz uma pequena lição para quem cozinha: não é preciso esconder bons ingredientes debaixo de molhos pesados. Quando a matéria-prima é fresca, menos pode significar muito mais.
Um fio de azeite. Algumas gotas de limão. Ervas recém-picadas. Uma fruta madura. Um peixe no ponto. E pronto. A primavera está servida. Talvez seja justamente esse o encanto da cozinha tropical: colocar no prato a impressão de que o sol, a chuva, as frutas e as cores do Brasil resolveram, por alguns minutos, sentar-se conosco à mesa.

