A vida adulta como instituição total

Eduardo Martínez
1 minutos de leitura
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Goffman provavelmente não imaginou que um dia alguém aplicaria sua noção de instituição total à vida adulta.

Mas, convenhamos, há momentos em que parece pertinente.

Acordamos.

Trabalhamos.

Pagamos contas.

Cuidamos de alguém.

Respondemos mensagens.

Organizamos documentos.

Marcamos consultas.

Fazemos compras.

Voltamos para casa.

Dormimos.

Repetimos.

Onde está a saída?

“Férias.”

Sim.

Durante cinco dias.

Depois voltamos.

A vida adulta parece uma instituição total com direito a cartão de crédito.

O mais curioso é que fomos preparados para isso.

Desde cedo ouvimos:

“Quando você crescer…”

Como se crescer fosse adquirir liberdade.

Ninguém contou que também adquiriríamos boletos.

Talvez a grande ironia seja essa: passamos a infância esperando a autonomia e chegamos à vida adulta descobrindo que autonomia também significa ser responsável por tudo aquilo que ninguém mais fará por nós.

É liberdade.

Mas uma liberdade bastante cansada.

Talvez por isso pequenos atos de prazer sejam tão importantes.

Um café.

Uma conversa.

Uma viagem.

Uma música.

Uma tarde sem compromisso.

Não porque resolvam a estrutura.

Mas porque nos lembram de que somos mais do que nossas obrigações.

E talvez essa seja a pequena brecha necessária para escapar, ainda que por algumas horas, da instituição.

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