Criticar bebida de poeta é pior que lamentar que nem todo bebum é poeta

Redação
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Wenceslau Araújo - Foto Paulo Pinto

Difícil continuar, mas entrei naquela fase de querer ficar distante dos políticos e, se possível, bem longe dos que se acham entendidos em política. São aqueles que transformam temas simples do futebol, da música e da própria rinha eleitoral em debates profundos e quase bélicos. Pode ser vã, mas é uma tentativa de evitar desgastes desnecessários e de buscar me aculturar com os que misturam idiomas e, mesmo sem saber pronunciá-las direito, só usam palavras difíceis nos diálogos caracterizados pelo efeito do álcool e marcados por repetições, excesso de franqueza, confusão de ideias e, sobretudo, a velha filosofia de boteco.

É claro que estou me referindo aos bêbados. Apesar de não ser um deles, tenho procurado os parças para conversas de segundo e terceiro graus. Querem coisa melhor do que um bate-papo com quem acredita ser um psicólogo ou conselheiro infalível, do tipo que se acha capaz de resolver os problemas do mundo? Dependendo do grau e da qualidade da “mardita”, a gente ouve sem querer demonstrações efusivas de amor aos amigos e muitas histórias de amores perdidos, chifres mal curados, relações inusitadas e até de altercações com os santos.

Depois de meia hora com dois ou três deles, descobri que não há reparo algum na frase cunhada pelo poeta norte-americano Charles Bukowski, para quem ser são é fácil, mas para ser bêbado tem de ter talento. Para defender a classe, vou mais longe e lembro de uma citação do escritor irlandês Oscar Wilde. Segundo Wilde, nunca devemos lamentar que um poeta seja um bêbado, mas sim lastimar que nem todos os bêbados sejam poetas. E assim caminha a humanidade democrática livre de preconceitos rumo ao primeiro boteco ainda aberto.

Fiz isso e percebi que os bêbados podem tranquilamente amar publicamente outro bêbado. Não me envolvi, mas eu vi uma dessas estranhas transas. Madrugada dessas, enquanto esperava o buzão defronte a um desses arranha-céus de Águas Claras, uma das cidades mais novas de Brasília, notei que um cidadão calibrado até a alma se debruçou sobre um container de lixo orgânico. A descoberta – dele e minha – feriu o mais libidinoso dos pensamentos. Dentro do container, sem as calças e com o toba vertido para cima e já na posição de combate, havia um outro bêbado. Na verdade, trêbado.

Escornado, o camarada vestia paletó e gravata. Não houve conversa. Da descoberta para o creu bastaram meia dúzia de segundos. Concluída a quase desequilibrada e não consentida ação, o melhor foi a reação do saciado pinguço. Ora olhando para mim, ora olhando para as janelas do edifício, o bêbado equilibrista balbuciou meio entre os dentes: Esses ricos realmente não são acumuladores. Veja só, um toba desse bonzinho jogado na lata do lixo. Preferi o silêncio, mas, também silenciosamente, pedi a todos os deuses para que o comedor não virasse lanche na quadra seguinte.

Mais light foi ouvir a conversa entre um obreiro de uma dessas igrejas evangélicas e um bebum cristão. Ao passar na porta do templo, o sujeito mamadão foi “convidado” a entrar na magnífica e suntuosa edificação. Dois passos e começou a ensurdecedora gritaria. A ala da direita gritava aleluia, a do centro respondia com glória a Deus e a da esquerda se mantinha contrita. Dando meia volta, o cachaceiro indagou do obreiro a razão dos gritos. Informado que era Jesus operando, o chumbado mancebo se preocupou com a incessante gritaria e quis logo saber se a tal operação era sem anestesia. Foi expulso da igreja aos pontapés. Participei do culto até o momento do recolhimento do dízimo.

Queria colaborar. E colaborei. Antes, porém, entre boquiaberto e perplexo, assisti à cerimônia de batismo dos crentes. Não sei de onde o camarada ressurgiu, mas lá estava o mesmo bêbado. Primeiro da fila, ele foi pego pelo gasganete e empurrado com roupa e tudo até um fundo da tina. A pergunta e a resposta eram sempre repetidas: Irmão, viu Jesus Cristo? Glub, glub, glub, não. Na décima ida ao fundo da tina, a mesma pergunta e uma nova resposta: E aí, irmão viu Jesus? Pastor, o senhor tem certeza de que foi aqui mesmo que Ele se afogou? Na dúvida, nunca mais fui àquela igreja e, pelo sim, pelo não, me parece mais normal embarcar na história de um corrupto conhecido do que nas aventuras de um alcoólico anônimo.

……

Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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