DaMatta e o brasileiro que descobriu que conhece alguém

Redação
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Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma frase brasileira capaz de reorganizar instantaneamente uma situação:

“Mas eu conheço uma pessoa lá.”

É impressionante.

A fila desaparece.

A burocracia flexibiliza.

O problema encontra uma solução.

O desconhecido se transforma em conhecido.

DaMatta certamente teria material para pensar essa pequena instituição nacional.

Porque no Brasil existe uma tensão curiosa entre a regra formal e a relação pessoal.

Todos sabem que existe uma norma.

Mas sempre existe alguém que conhece alguém.

“Você não tem um contato?”

“Conheço fulano.”

“Meu amigo trabalha lá.”

“Vou ver se consigo falar com alguém.”

A sociedade brasileira possui uma relação bastante criativa com a universalidade das regras.

Queremos que sejam universais quando nos favorecem.

Quando nos atrapalham, procuramos uma exceção.

E é aí que o famoso “jeitinho” aparece.

Nem sempre como corrupção.

Às vezes como estratégia de sobrevivência.

Outras vezes como privilégio.

A questão sociológica está justamente na fronteira entre os dois.

Porque uma coisa é encontrar uma solução humana para uma burocracia absurda.

Outra é acreditar que o acesso a pessoas importantes deveria substituir direitos que deveriam ser universais.

Quando o favor ocupa o lugar do direito, alguma coisa está errada.

Talvez o sonho de uma sociedade justa seja justamente aquele em que você não precise conhecer ninguém.

Basta ter o direito.

Sem padrinho.

Sem contato.

Sem “vou tentar falar com alguém”.

Apenas o direito funcionando.

Seria quase revolucionário.

E talvez, para nós brasileiros, ligeiramente assustador.

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