Ilíada de aniversariantes prova que a noite é mesmo uma criança

Redação
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José Seabra - Foto Acervo Pessoal

A vida, definitivamente, é feita de aprendizado, como noites que começam no relógio e outras que afloram na alma. O sábado, 19, registrou as duas formas. Por volta das nove, quando Brasília já havia recolhido o Sol atrás dos prédios e Águas Claras acendia suas janelas como estrelas particulares, veio o primeiro parabéns. Era para Dilma.

Mas o tempo, esse velho malandro que nunca pede licença para passar, ainda guardava uma surpresa. Bastaria esperar que os ponteiros cumprissem sua caminhada silenciosa até a meia-noite. Quando o sábado entregou as armas e o domingo, 20, respirou seu primeiro segundo, houve novo parabéns. Agora era Mari.

Duas mulheres, duas histórias, dois aniversários separados apenas por algumas horas e unidos pela mesma noite. Se Homero tivesse aparecido por essas bandas, por certo teria guardado a Guerra de Troia para outra ocasião, porque havia uma epopeia muito mais pacífica acontecendo em Águas Claras.

Não existiam Aquiles nem Heitor. O cenário era de Leandro empunhando a voz, e Djalma, o violão. E isso bastava para provar que existem batalhas que se vencem cantando. Primeiro, o bar. Depois, a Praça Jandaia. E assim a pequena confraria atravessou a madrugada carregando alegria de um lugar para outro, como antigos viajantes levando fogo para que a chama não se apagasse.

Se havia parentes, mesmo que de passagem para um beijo, um abraço, por certo sim. Mas não apareceriam na foto, porque chega determinado momento da vida em que descobrimos que parentesco não é apenas aquilo que o sangue escreve. Há irmãos escolhidos pelo acaso, pela mesa de bar, pela conversa comprida, pelo copo compartilhado, pela música que alguém começa e todos terminam.

É uma família sem inventário, certidão ou obrigação, onde a única escritura é o afeto. Dilma e Mari estavam radiantes, protagonizando os papéis de duas Helenas de uma Troia sem guerra, embora ninguém pretendesse sequestrá-las. Muito pelo contrário, porque todos queriam mantê-las ali, cercadas pela música e pela amizade, protegidas do avanço impiedoso das horas.

Mas Cronos não perdoa nem aniversariante. Uma da manhã, duas, três. E somente por volta das três e meia, o pequeno exército começou a dispersar. Um abraço aqui, outro acolá, e mesmo um “até amanhã” que, tecnicamente, já deveria ser “até mais tarde”.

Alguns partiram com destino a seus apartamentos, camas, travesseiros e o merecido silêncio depois de uma noite inteira de celebração. Mas houve resistentes, pois esses sempre existirão. É gente que considera a madrugada um território sagrado e acha quase uma heresia abandoná-la antes que o Sol apareça.

Alguém lançou a sugestão de ficar até o amanhecer. A Lua ouviu, testemunhou, e lá do alto, sorriu daquele bando de homens e mulheres maduros brincando com as horas como adolescentes que ainda acreditam ser possível negociar com o tempo.

Talvez seja isso mesmo, a ponto de, nesta madrugada, ter nascido a decisão de que, a partir de agora, os aniversariantes de cada mês terão sua noite especial, mesmo que sem salão de festas, lustres de cristal ou convites impressos em papel caro.

Bastarão os amigos, uma praça, um violão, uma voz, algumas histórias e principalmente a Lua, que ficará responsável por iluminar cada nova celebração, como testemunha silenciosa dessa confraria que descobriu como comemorar a passagem dos anos sem medo da soma.

Em momentos assim, vê-se que envelhecer significa apenas acumular aniversários suficientes para compreender que a juventude nunca morou exatamente no corpo. Ela mora na vontade de ficar, na disposição para cantar mais uma música, no desejo de pedir outra rodada e na coragem de atravessar as três da manhã e ainda discutir se vale a pena esperar pelo Sol.

Dilma ganhou seus parabéns e Mari os dela. Leandro deixou a voz pela madrugada, enquanto Djalma fez seis cordas parecerem uma orquestra. Depois do bar, a Praça Jandaia ganhou personagens, e Águas Claras foi presenteada com uma pequena Ilíada sem cavalos de madeira, espadas ou mortos; apenas sobreviventes do tempo reunidos sob o luar.

E quando os últimos acordes se perderam entre os edifícios e a madrugada começou lentamente a clarear, ficou a certeza que podem passar os sábados, os domingos, os aniversários e os anos que embranquecem os cabelos e fazem surgir rugas, como pode, também, acontecer de os ponteiros correrem cada vez mais depressa. Contudo, nada disso cabe neste espaço, porque enquanto houver amigos dispostos a cantar sob a Lua e esperar juntos pelo nascimento do Sol, haverá juventude. E descobre-se, enfim, que o tempo envelhece a carne, mas a noite continua sendo uma criança.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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