Malu 14.0, O Pensador, de Rodin, e os 60 anos que um dia chegarão por aí

Redação
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José Seabra - Foto Acervo Pessoal

Na sexta-feira, 25, Malu completou 14 anos. Q.u.a.t.o.r.z.e, celebrados como uma vitória no jogo de adedonha. Trata-se de uma idade engraçada, onde ela já não cabe inteiramente no colo, mas ainda cabe inteira no coração do avô. Talvez seja esse um dos mistérios que nem a matemática, nem a economia, nem a tecnologia conseguiram resolver, como os filhos e netos que crescem, o mundo envelhece mas há pessoas que continuam crianças dentro da gente.

Em um café com biscoitos e torta de morango com suspiro, olhei para Malu. Ela estava diante de mim com os olhos de quem ainda tem praticamente uma vida inteira por estrear. Eu, do outro lado, carregava nos cabelos a prata dos calendários já vencidos.

Levei a mão ao queixo e talvez, inconscientemente tenha imitado, O Pensador, de Rodin. Faltavam-me, evidentemente, os músculos do sujeito de bronze, mas sobravam pensamentos.

— Malu, como você se imagina daqui a 60 anos, quando estiver com a minha idade?

Ela me olhou, seguindo-se um pequeno silêncio. Naquele instante, eu era Rodin. Ou melhor, pretendia ser O Pensador. Imaginava ter colocado diante da minha neta uma dessas perguntas destinadas a atravessar gerações. Esperava talvez uma resposta sobre cabelos brancos, filhos, netos, profissão, sonhos realizados, uma varanda, uma cadeira de balanço ou qualquer outra imagem dessas que nós, os velhos, construímos quando resolvemos filosofar sobre o tempo.

Malu, porém, tem 14 anos, e nessa idade ainda existe a aritmética, uma arma devastadora contra a filosofia dos avós.

— Vô, isso é uma filosofia abstrata.

Franzi a testa, como Rodin provavelmente também faria.

— Abstrata por quê?

— Como eu teria a sua idade daqui a 60 anos? O tempo para você pararia de contar a partir de agora?

E sorriu. Antes que eu encontrasse uma saída digna para a armadilha que eu próprio havia preparado, veio a sentença da neta:

— Eu acho que você estaria com 134.

Pronto. O raciocínio dela fez o Pensador despencar do pedestal, com minha escultura filosófica, cuidadosamente construída durante alguns segundos, acabava de ser demolida por uma adolescente que simplesmente somou 74 mais 60.

Não havia metafísica, e sim, matemática. E contra a matemática de uma menina de 14 anos não existe bronze de Rodin que resista.

Olhei novamente para ela, ainda com a mão no queixo.

— Sabe, Malu, O Pensador é uma escultura figurativa. Rodin fez um homem de bronze para representar o pensamento, uma coisa que ninguém consegue tocar.

Ela me olhou com aquela expressão que os adolescentes reservam aos adultos quando suspeitam que vem aí mais uma palestra, e prossegui mesmo assim:

— Ele conseguiu transformar uma coisa abstrata numa figura concreta.

Malu sorriu, eu imaginando os pensamentos dela, do tipo “Lá vem o Vô de novo”. E veio.

— Você fez exatamente o contrário comigo. Pegou minha filosofia abstrata e transformou em conta de somar.

Ela sorriu mais uma vez, e foi então que percebi que, naquela conversa, estavam reunidas três gerações e algumas ciências.

O pai de Malu é profissional de Tecnologia da Informação, vivendo em um universo em que comandos precisam fazer sentido, códigos precisam funcionar e erros de lógica costumam cobrar sua conta. A mãe, como economista, aprendeu a conversar com números, projeções, variáveis, resultados e aquelas equações que tentam explicar por que o dinheiro entra por uma porta e, misteriosamente, encontra tantas outras para sair.

Malu ficou no meio, por provavelmente ter herdado um pouco dos dois. Do pai, talvez a lógica. Da mãe, quem sabe, a intimidade com os números. Já do avô, espero que tenha herdado ao menos o direito de desconfiar das certezas. Porque, no resultado final, pouco importa de que lado vieram as parcelas.

É sabido que a ordem dos fatores não altera o produto, que, neste caso, chama-se Malu do alto dos seus 14 anos. Olhei mais uma vez para minha neta e compreendi que talvez Rodin estivesse certo em deixar O Pensador imóvel, porque pensar exige tempo. O problema é que o tempo não fica imóvel, e nós, sim, é que gostaríamos que ficasse, principalmente quando olhamos para uma criança que vimos nascer e descobrimos, quase de repente, uma adolescente diante de nós.

Ontem cabia nos braços e hoje corrige a matemática do avô. Amanhã talvez esteja explicando aos próprios filhos que houve um tempo remoto em que seu avô acreditou que poderia congelar o relógio apenas para encontrá-la, sessenta anos depois, exatamente onde ele estava.

Mas ela estava certa. Se Malu chegar aos 74, eu teria 134, num cálculo matematicamente irretocável. Filosoficamente, porém, peço licença à minha pequena economista da vida para apresentar um recurso, com um habeas corpus garantindo que eu hora eu não tenha mais 134, como resultado da conta dela. Avalio mesmo que talvez não tenha idade alguma, porque existem pessoas que continuam vivendo numa história contada à mesa, numa fotografia guardada, numa frase repetida pela família, numa mania herdada, numa gargalhada que alguém reconhece no rosto de um descendente.

Mas, suponho, estarei em algum cantinho da memória dela. E se for assim, será como na sexta-feira, com a mão no queixo, imitando O Pensador de Rodin, fazendo uma pergunta pretensamente profunda enquanto uma menina de 14 anos sorri para mim e demonstra que, diante do tempo, o avô pode até filosofar. Malu, contudo, faz as contas. E vence.

…………

José Seabra é CEO fundador de Notibras

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4 Comentários
  • Filosofia, matemática, tecnologia da informação, tudo misturado no amor de vô para felicitar Malu. Parabéns, saúde, paz e sabedoria 🥳 bjs

  • Que texto lindo!

    Não tem como existir uma relação de respeito e reconhecimento sem amor.

    O amor puro e verdadeiro é reflexo de uma relação bonita, saudável e construída sem esperar nada em troca.

    Parabéns ao vovô e à neta por essa relação tão especial! ❤️

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