Manual sociológico para quem não aguenta mais dar explicações

Eduardo Martínez
2 minutos de leitura
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Regra número um:

Você não precisa explicar tudo.

Regra número dois:

Leia novamente a regra número um.

Vivemos em uma sociedade que exige justificativas para quase tudo.

Por que você não casou?

Por que casou?

Por que não tem filhos?

Por que tem?

Por que mudou de emprego?

Por que continua?

Por que viajou?

Por que não viajou?

Por que está quieta?

Por que está feliz?

Existe uma verdadeira burocracia existencial.

E, curiosamente, quase ninguém percebe que algumas perguntas não são demonstrações de interesse.

São tentativas de enquadramento.

Goffman nos ajuda a perceber como nossas identidades são negociadas socialmente.

Bourdieu nos lembraria que nossas escolhas também são atravessadas por estruturas.

Foucault perguntaria quem estabeleceu a norma.

E Becker talvez perguntasse quem decidiu que sair dela era um problema.

Às vezes, a pergunta mais importante é:

“Quem disse que eu precisava explicar isso?”

Não precisamos transformar toda decisão em audiência pública.

Algumas escolhas podem simplesmente existir.

Não são argumentos.

Não são manifestos.

São escolhas.

E talvez uma das formas mais elegantes de amadurecer seja parar de apresentar documentação comprobatória da própria vida.

A vida não é um processo administrativo.

E nós não precisamos protocolar nossa felicidade em três vias.

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