Depois do ramo de flores colocado na cueca para homenagear o morto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve amanhecer nesta terça-feira (02) contando os dias tenebrosos que terá de enfrentar até o encerramento de seu medíocre, conturbado e melancólico segundo e último mandato na Casa Branca, marcado para 20 de janeiro de 2029. Se tudo der certo, o fim do dia das eleições de meio de mandato será o começo da derrocada de um governo que os norte-americanos dificilmente sentirão falta. No popular, após se render ao morto, hoje Trump deve começar a morrer politicamente.
Mantido o quadro traçado pelos principais institutos de pesquisa do país comandado pelos republicanos, tudo indica que, na manhã de quarta-feira (04), os democratas terão reconquistado a maioria em pelo menos uma das duas casas no Congresso. O objetivo é recuperar Câmara e Senado. Se conseguirem, a consequência poderá ser imediata. Com a vitória, os democratas, além de conter parte da insensatez da atual administração dos EUA, deverão trabalhar desde já com planos concretos para reduzir custos, tornar a assistência à saúde e a moradia mais acessíveis, e manter as contas de serviços públicos mais acessíveis.
Tão ou mais dividido do que o Brasil em que a democracia venceu cabulosamente uma provável tirania civil, os cerca de 210 milhões de eleitores dos Estados Unidos de Trump, Marco Rubio, Elon Musk e afins estão votando desde meados da semana passada. Até a noite dessa segunda-feira (2), os democratas apareciam à frente em estados cruciais para a definição do controle do Senado, entre eles o Texas e o Kansas, ambos controlados há anos pelos republicanos. As informações recebidas do front dão conta de que Trump experimenta do próprio veneno.
A exemplo do exército do Lula, os americanos, notadamente os de origem latina, querem votar para derrubar aquele que, na avaliação deles, é o pior presidente que os EUA já tiveram. Igualzinho como foi aqui há pouco mais de uma semana. Fizemos nossa parte. Como o clã que, presidencialmente, se evaporou no Brasil, Trump fez por merecer a ameaçadora derrota de hoje. Fazendo minhas as palavras da companheira Sonja Tavares, na falta do que fazer para reduzir a aversão do mundo à sua figura, ele passou boa parte de seu mandato procurando pretextos para assumir o controle governamental e subordinar nações presididas por gestores medrosos, relapsos ou entreguistas.
Ao lado da família Bolsonaro, o argentino Javier Milei, o salvadorenho Nayib Bukele e o colombiano Abelardo de la Espriella lideram a extensa lista de políticos latinos subservientes aos EUA. No caso do Brasil, tem respeito, mas não vassalagem. Por aqui, Trump perdeu porque quem seu governo apoiou não ganhou e fugiu. Simples assim. Como dizem lá na minha terra, quem pariu o perdedor fujão que o embale. O fato a se comemorar é que, sem o poder que, em tese, lhe sobrava, o líder republicano não terá mais tanta força para sustentar ações mais radicais contra os brasileiros, mexicanos, cubanos, canadenses, noruegueses, russos e iranianos.
Vale lembrar que essas são das poucas nações que, mesmo com seu império econômico, político e bélico, Donald Trump ainda não conseguiu subjugar. Sem um Prêmio Nobel para chamar de seu, se perder a maioria dos 435 assentos da Câmara dos Representantes e a disputa por 35 das 100 cadeiras do, o presidente republicano terá de rebolar na boquinha da garrafa para se sustentar nos fundos da mesa principal da Casa Branca. Perdendo, o rosário de explicações será medido em quilômetros.
Em relação ao Brasil, Trump terá de explicar o financiamento de campanhas contra a Suprema Corte do Brasil, o politiqueiro tarifaço do meio ano e, sobretudo, a guarida a brasileiros de conduta duvidosa, entre eles Paulo Figueiredo, Allan dos Santos, Willer Tomaz, Alexandre Ramagem e os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro. Rejeitado por 61% dos americanos – a maior desde George W. Bush -, Donald Trump talvez consiga tempo para, após a provável derrota, reconhecer a fragorosa e democrática vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Quanto aos brasileiros fujões, comecem a torcer para que, em novembro de 2028, os americanos não elejam um democrata azedo, brasilianista e avesso a latinos que não sabem perder.

