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Ações em massa para desacreditar Supremo ameaçam a democracia

Em tempos de turbulência, há sempre alguém disposto a vender fósforo perto do depósito de pólvora. E o Brasil, que multiplica crises, tempera e serve em praça pública, está assistindo a mais um capítulo do velho enredo nacional, onde documentos sigilosos aparecem misteriosamente nas esquinas digitais, trechos escolhidos a dedo ganham vida própria, versões circulam antes dos autos, e o debate deixa de ser jurídico para se transformar em espetáculo.

Em linhas gerais, não se vaza mais informação; fabrica-se atmosfera. E quando o país atravessa aperto fiscal, desconfiança de mercado, ruído entre Poderes, disputa antecipada por espaços de 2026 e nervosismo institucional, certos vazamentos deixam de parecer acidente hidráulico e passam a lembrar engenharia de pressão. Não se abre a torneira por acaso, pois escolhe-se antecipadamente a hora, o cano e o destinatário.

O curioso é que, quase sempre, o alvo preferencial tem o Supremo Tribunal Federal como o mesmo endereço. Repórter da velha guarda, da época em que nós, mulheres jornalistas, não podíamos circular nos salões dos Poderes trajando calças compridas, entendo que o Supremo, em particular, não é intocável. Aliás, nenhuma instituição republicana deve ser. Penso, ao contrário, que crítica é oxigênio da democracia. Mas há uma diferença civilizatória entre crítica e corrosão planejada. Entre discordar de decisões e alimentar a suspeita permanente de que nada ali merece sobreviver.

Quando trechos sigilosos são lançados ao público sem contexto, sem contraditório e sem o conjunto da engrenagem processual, a intenção raramente é esclarecer. Muitas vezes, o objetivo é outro: produzir indignação instantânea, converter fragmento em sentença moral e transformar a praça pública em tribunal superior ao próprio tribunal.

O que aprendi ao longo da minha trajetória jornalística é que vivemos a política do bisturi enferrujado, onde corta-se apenas onde sangra mais. A pergunta que paira, portanto, não é apenas quem vazou. A pergunta relevante é a quem serve o vazamento?

Serve ao investigado que precisa inverter o foco, ao grupo político que deseja deslocar a pauta econômica para o campo emocional, ao operador de crise que sabe que, quando a inflação aperta, convém oferecer um inimigo institucional ao público, e serve, também, ao mercado paralelo da desconfiança, onde likes, manchetes e narrativas rendem mais do que prudência. E tudo isso leva a crer que tentar desmoralizar uma Corte não é efeito colateral, mas método premeditado.

Politicamente, ganha quem transforma tensão institucional em combustível eleitoral. A prova é que, sempre que o Supremo é empurrado para o centro de uma arena de desgaste, surgem personagens prontos para se apresentar como intérpretes exclusivos da indignação popular, mesmo que muitos deles tenham recorrido à própria Justiça quando lhes faltou abrigo político.

Assim, não é de estranhar que o enfraquecimento da Corte interessa sobretudo aos que desejam simplificar o debate nacional numa narrativa binária, onde de um lado está “o povo”; do outro, “as instituições”. É uma fórmula antiga, eficaz e perigosa, porque desloca a discussão sobre inflação, juros, déficit e governabilidade para um campo emocional em que a razão perde espaço para o aplauso fácil. Em ambiente de pré-campanha permanente, desgastar o tribunal significa também fabricar um adversário abstrato, suficientemente poderoso para mobilizar bases e suficientemente distante para absorver frustrações coletivas.

O Supremo virou, nos últimos tempos, uma espécie de para-raios nacional. Quem recebe a descarga de setores opostos é o STF: uns o acusam de excesso; outros, de omissão; uns querem mais intervenção; outros sonham com retração absoluta. No meio do vendaval, qualquer papel timbrado transformado em manchete cumpre função semelhante à de gasolina em fogueira já acesa. E não deixa de ser revelador que os defensores mais barulhentos da transparência sejam, por vezes, os mesmos que apreciam bastidores opacos quando lhes convém.

Há ainda um detalhe pouco dito. O enfraquecimento do Supremo interessa particularmente a quem prefere uma República sem árbitro. Porque num país onde Executivo testa limites, Legislativo mede forças e corporações disputam influência, retirar autoridade do guardião constitucional equivale a desmontar a trave no meio do campeonato. E sem juiz confiável, qualquer falta vira interpretação conveniente.

Não se trata de santificar ministros, nem de blindar decisões. Trata-se de perceber que há diferença entre o desgaste natural de uma instituição e uma operação contínua de desgaste dirigido. Sabemos que toda democracia madura suporta crítica severa, embora – fique isso claro -, o que não se suporta por muito tempo é a pedagogia do descrédito permanente.

No Brasil, onde a crise costuma chegar de terno, gravata e sorriso lateral, talvez haja gente apostando que derrubar reputações institucionais rende dividendos mais rápidos do que reconstruir confiança. E quase sempre os que mais assopram a fumaça aparecem pouco diante das câmeras, pois preferem o corredor, a antessala, o telefone sem registro e o vazamento sem assinatura.

A história ensina, porém, que quando pilares começam a ser corroídos em nome da conveniência imediata, o teto demora pouco a ranger. E teto que range em Brasília, quase nunca avisa antes de cair.

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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

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