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Anistia para Jair e terceiro mandato para Trump vão dominar um ano difícil

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington (EUA).

Os entendimentos da hermenêutica são os únicos capazes de nos garantir que, maior do que a família ou o fracasso político, o grande legado de Jair Bolsonaro foi a descoberta brasileira de Donald Trump. líder de uma democracia que ele luta para transformar na principal tirania do mundo moderno. A mesma hermenêutica diz que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Entretanto, conforme a lógica aristotélica, ele pode se dividir e cair no mesmo continente, desde que não sejam usadas as subdivisões da América. Idênticos nos gestos, pensamentos, ações e até na matemática, Jair Bolsonaro e Donald Trump somados resultam em um milhão de problemas e dez milhões de mazelas.

Criador e divulgador dos conceitos verdade, mentira, realidade e fake news, Trump dispensa comentários mais rebuscados, embora esteja no mercado da fantasia política há nove anos. Aproveitando a numerologia, faz pelo menos oito anos que tento encontrar uma resposta para a importância de Jair Bolsonaro no cenário político nacional. Dirão meus detratores que, além de 28 anos como deputado federal, ele alcançou o cargo mais alto da nação, o de presidente da República. Perdão, mas, por conta do absoluto fiasco desses dois títulos, fiz questão de não recomendá-los aos leitores mais antenados.

Como dizem os profetas, a maior satisfação de um homem público é o dever cumprido. Guardadas as emoções, o fanatismo e a idolatria, o que o citado cidadão fez de útil para o Brasil e para os brasileiros? Lamento informá-los, mas, a olhos nus, nada de proveitoso. Muito pelo contrário. Foram tantos erros, tantos rancores que, muito mais marcante do que seu arsenal de mentiras, o egoísmo e o ódio pelos que lhe diziam não devem ser as raízes de todos os males que gerou para a nação. Normalmente escolho o hoje como o dia mais belo da vida. Daí ter acordado disposto a ter paz interior, ser útil de forma diferente e a usar o otimismo e a fé como antídotos contra aquele ou aqueles que se acham mais realistas do que o rei, consequentemente mais fortes do que o sorriso, a sabedoria e o amor.

Por isso, cansado da repetitiva monotonia em que se transformaram as narrativas relativas ao ex-presidente e agora presidiário Bolsonaro, sinto que está próximo o fim de minha relação com o tema. Para os esquecidos, foi Jair quem, depois de esculhambar o papa Francisco, teve de se render aos cultos conjuntos dos pastores Silas Malafaia, Sóstenes Cavalcante e Robson Rodovalho para tentar fugir dos diabinhos que atentam seu cérebro após a incontestável derrota para Luiz Inácio. Perder incomoda até hoje. Todavia, pior do que ter de engolir o sapo barbudo é substituir o jet ski pelos pedalinhos do Lago Paranoá, os Alpes Suíços pela cela da Polícia Federal, a Torre Eiffel pela vista da Torre de TV de Brasília e os trens balas da Europa pelos camburões escoltados da PF.

Ao contrário do que afirma a ciência, semelhantes também se atraem. Seria a corda e a caçamba? Jair Messias, quem diria, acabou recolhido às quatro linhas do xilindró. Seu ex-parceiro, Donald Trump não está longe disso. É perder a eleição de novembro para a Câmara de Representação e, independentemente de suas estripulias, aguardar o fim da linha, também conhecido no jargão político por impeachment. Até lá, o republicano fará de tudo para ampliar os poderes presidenciais. Impedido pela 22ª. Emenda da Constituição dos Estados Unidos de exercer mais de dois mandatos presidenciais, mesmo que não sejam consecutivos, Trump tem dado sinais de que vai buscar alternativas para manter sua influência ou retornar ao poder. A exemplo do golpe do bolsonarismo, ele dará com os burros nas águas da Costa Leste e da Costa Oeste.

Nada de anormal para a infernal dupla, cujas maracutaias sempre acabam nos quintos do Central Parque, da Avenida Paulista ou da orla de Copacabana. É o criador no encalço da criatura. No Brasil, o caminho foi um frustrado golpe de Estado com desfecho pra lá de justo: 27 anos e três de cadeia para o golpista majoritário. Nos EUA, o golpismo está no ar desde janeiro de 2017, data do primeiro mandato do presidente republicano. A exemplo da dosimetria, anistia e demais porcarias, tanto lá quanto cá há coisas muito mais importantes no céu do que somente os aviões de carreira. Ou seja, liberdade para Bolsonaro, terceiro mandato para Trump, incorporação do Canadá, invasão de Cuba e compra da Groenlândia são os grandes mitos de 2026. De forma mais didática, são ideias fantasiosas demais para serem levadas a sério.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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