Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, anda praticando um esporte de alto risco. É quando busca equilibrismo institucional sem rede. As últimas decisões da autoridade monetária máxima do país mais parecem um ‘Samba do Crioulo Doido’ remixado com ‘O Bêbado e a Equilibrista’. A diferença é que não tem a poesia de Aldir Blanc e os juros reais, cada vez mais escorchantes, substituem o violão.
A confusão atinge tal grau que o banqueiro virou assunto radioativo para Elisa Veeck, âncora do Expresso, da CNN. O nome não pode ser pronunciado. O tema não existe. O silêncio é tão absoluto que faria inveja a um mosteiro cartuxo. E, curiosamente, quanto mais o Banco Central tropeça em decisões confusas, recuos públicos e críticas abertas ao seu comando, mais o noticiário parece entrar em modo avião.
O assunto fervilha no mercado, borbulha nas redes sociais e corre solto nos bastidores políticos. Mas na vitrine jornalística… nada. Nem análise, nem comentário, nem aquele questionamento básico que justifica a existência do jornalismo. Quando muito, o tema escorrega para a coluna socia, como se a política monetária fosse um detalhe menor diante da vida pessoal do protagonista.
Não se trata de fofoca, simpatia ou antipatia. Trata-se de percepção pública. Jornalismo existe para questionar o poder, sobretudo quando ele mexe com juros, crédito, inflação e, no fim da linha, com a vida de milhões de brasileiros. Quando um assunto some da pauta sem explicação, a ausência deixa de ser neutra e passa a ser editorial.
Em jornalismo, transparência não é apenas o que se publica. Às vezes, é justamente o que se evita dizer que grita mais alto. E, do jeito que a banda anda tocando, esse trem-bala monetário corre sério risco de descarrilar. Em silêncio, claro, para não atrapalhar a programação.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
