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BC esconde na liquidação do Master quem atravessou Rubicão no escuro

Há decisões que não admitem meia-luz. Ou se explicam à sociedade, ou se tornam suspeitas por definição. A intervenção do Banco Central no Banco Master — seguida de sua liquidação sumária — pertence a esse segundo grupo. Não apenas pelo desfecho, mas pela forma. Pela pressa. Pelo silêncio. Pela convicção arrogante de que ninguém precisa entender nada.

É nesse ponto que o Tribunal de Contas da União entra em cena, não como vilão, mas como lanterninha atrasado que ousou acender a luz quando o espetáculo já estava em chamas. E bastou isso para que a elite tecnocrática entrasse em histeria coletiva, gritando palavras mágicas — “autonomia”, “risco sistêmico”, “caixa-preta” — como quem recita um mantra para espantar o povo da sala de máquinas.

O recado implícito é claro: eles acham que você é idiota. E boa parte da grande imprensa concorda.

A narrativa oficial tenta vender a ideia de que a chamada “contraFictora caixa-preta” do Banco Central seria, na verdade, uma “maior ficção” necessária para proteger o sistema. Um truque retórico antigo: esconder a culpa sob o verniz da complexidade. Afinal, para a casta de ungidos que vive entre o ar-condicionado de Brasília e os escritórios envidraçados da Faria Lima, o cidadão comum é tratado como uma criança lenta, incapaz de compreender a liturgia do mercado financeiro.

Mas os fatos — esses teimosos — insistem em escapar.

O despacho do TCU descreve um roteiro de filme de terror administrativo. Havia propostas sobre a mesa. Havia interessados. Citam-se o Grupo Fictor, do setor privado, e o BRB, banco estatal. Havia, portanto, alternativas à implosão. Ainda assim, o regulador preferiu puxar a tomada, destroçar o suposto “porto seguro” e observar, em silêncio, a debandada dos ratos do navio que afundava.

E então vieram as desculpas.

“Ah, mas o banco era uma fraude, um lixo tóxico.”

Mesmo que fosse. Mesmo que fosse o pior esgoto financeiro do mercado. A pergunta permanece, incômoda como um alarme que não desliga: por que rejeitaram quem queria comprar o lixo? Se havia quem aceitasse assumir o risco, pagar a conta e limpar a sujeira, por que o Banco Central decidiu que a melhor solução era incendiar o prédio inteiro?

Não se trata de defender o defunto. Trata-se de acusar o coveiro. Se o prédio está em chamas e alguém aparece disposto a comprar as cinzas, o Estado vende — ou proíbe a venda só para assistir aos escombros fumegarem? O BC escolheu a fogueira. Isso não é rigor técnico. É sadismo burocrático.

“Ah, mas o TCU é político. Querem atacar a autonomia do Banco Central.”

Essa é a muleta dos covardes. Mesmo que se aceite o argumento — mesmo que o fiscal seja movido pela pior das intenções — o erro documentado deixa de existir? Desde quando a verdade depende da biografia de quem aponta o erro?

Se o diabo bate à sua porta avisando que sua casa está pegando fogo, você apaga o incêndio ou começa um debate teológico sobre a moralidade do mensageiro? O despacho do TCU aponta que o Banco Central aprovava atos do Banco Master dias antes de decretar sua morte súbita. Isso não é autonomia. É esquizofrenia institucional.

“Ah, mas abrir a caixa-preta gera risco sistêmico e afasta investidores.”

Mentira. Conversa fiada para boi dormir. O que afasta investidor não é transparência; é imprevisibilidade. O verdadeiro risco sistêmico é ter um Xerife da Moeda que, na quinta-feira, acorda benevolente e aprova tudo, e na terça seguinte, de mau humor, fecha tudo — sem explicar por quê.

Sigilo pode ser instrumento. Opacidade permanente é vício. O risco moral de um regulador que se acredita acima do bem e do mal é infinitamente mais caro ao país do que qualquer banco quebrado. Bancos quebram. O que não pode quebrar é a obrigação de prestar contas.

A obscenidade maior não está na liquidação em si, mas na reação da grande mídia, que abandonou o jornalismo para atuar como assessoria de imprensa da tecnocracia. Vendem a ideia de que saber a verdade é perigoso. É a lógica do marido infiel que esconde a traição “para proteger a família”.

Não se trata de inflação. Não se trata de estabilidade. Trata-se de algo mais básico: saber se, no Brasil, existe uma casta acima da lei. Uma elite que erra, esconde, e ainda exige aplausos.

A corrupção financeira, se existe, é suja, vil, criminosa. Mas essa blindagem institucional, essa defesa apaixonada da escuridão, é ainda pior. É a institucionalização da mentira. É a placa cinzenta erguida na saída dizendo: “O último a sair, por favor, apague a luz.”

O TCU não promove uma devassa. Faz o mínimo que resta de digno nesta República: acende a luz. E é exatamente por isso que as baratas correm, os ratos abandonam o navio e o coro dos bem-nascidos entra em pânico.

Atravessar o Rubicão sem olhar para trás sempre foi um ato grave. Em Roma, sabia-se disso. No Brasil, parece que alguns acreditam poder fazê-lo no escuro — e ainda exigir silêncio de quem paga a travessia.

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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

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