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Brancos soberbos matam pelo poder, mas fogem ao primeiro sinal de perigo

Assim como professores e médicos, negros, pobres e índios não deveriam ser lembrados apenas por um dia. Afinal, todo dia é dia de negro, de pobre e de índio. Por isso, comemorei o Dia da Consciência Negra com certo pesar. Como tenho os dois pés na África, aproveitei o dia para homenagear meus antepassados com carinho proporcional ao ódio que sinto pelos brancos que, por meio de golpes, insurreições ou mordaças simbólicas, querem transformar o Brasil em território exclusivo da Confraria Indesejada dos Branquelos Tirânicos. Como os de pele clara do bem e da paz não se acham diferentes, eles serão sempre bem-vindos nas rodas de negros de boa cepa.

Afinal somos todos iguais. Mesmo sendo iguaizinhos a todos os demais seres humanos, os tipos soberbos não gostam de ser incomodados. Quando são, se acovardam, atiram bombas, articulam golpes, se acotovelam em frente a prédios públicos conhecidos pelo poderio bélico, ameaçam de morte autoridades constituídas ou eleitas democraticamente e, como meninos cagões, fogem do país ao primeiro sinal de perigo. Foi assim com Jair Messias depois da derrota para Lula da Silva e foi assim com o deputado Eduardo Bolsonaro após perceber que o benfeitor seria condenado pelas barbáries antidemocráticas.

Seguindo o mesmo caminho de pai e filho, “blogueiros” de alcova aproveitaram a brecha do ex-presidente e, provavelmente fantasiados de odalisca, partiram para uma viagem sem volta. Se voltarem, serão presos como o mito que criaram exclusivamente para achincalhar a pátria. Pelo andar da carruagem bolsonarista, tudo indica que o fujão da vez atende pelo nome de Alexandre Ramagem. Condenado a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão por conta da trama golpista, o policial federal e deputado federal está próximo de perder o posto, o salário e o mandato.

Por isso, a saída sorrateira para os Estados Unidos, onde deverá se associar a Dudu Bolsonaro na fritura de hambúrgueres ao ar livre, isto é, nas ruas. É o caminho a ser trilhado por aqueles que se acham superiores e abusam do poder para esculhambar pobres, negros, nordestinos e índios. Seguindo a velha máxima de que o inferno é aqui mesmo, todos os que se opuseram à vontade do povo em 2022 terão de pagar – e caro – por toda a bandalheira política, econômica e golpista que produziram em um único mandato presidencial. São os mesmos que, à beira de um ataque de nervos pela iminente prisão, fogem ou se acham no direito de pleitear benefícios para o cumprimento da pena.

Negros, pobres e trabalhadores honestos que eventualmente descumprem a lei recebem punição, às vezes, muito superior ao delito. Sem entrar no mérito, alguns pagam com a vida, caso dos 117 mortos na chacina encomendada pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Como determina a Constituição, a prisão deve ser igual para todos. Não tem sentido cela especial para políticos. Se a doença for o motivo para a prisão domiciliar, qualquer presidiário enfermo deveria receber os mesmos cuidados. Enquanto articulavam contra a vida de adversários, Jair Bolsonaro e sua corriola não manifestaram nenhuma enfermidade.

Portanto, ele, os ditos velhinhos de farda, os oficiais da balbúrdia e os amantes da violência, entre eles os brincalhões de 8 de janeiro de 2023, têm de ser punidos com o mesmo rigor aplicado às minorias. Cadeia para todos e, no momento oportuno, que percam suas patentes, seus vantajosos salários e, principalmente, a liberdade que sempre quiseram tirar dos verdadeiramente patriotas. Como cidadãos comuns e presos, quem sabe um dia essa diabólica turma leia o Barão de Itararé e aprenda que a sombra do branco é igual à do negro e que o sangue de um de outro é vermelho. Para adiantar, lembro a lição do Preto Velho: “Quando nós não aprende a lição, nós tem de repetir mil vezes a tarefa”. Quando esse dia chegar, poderemos dizer que a luta de Zumbi contra a rapinagem e a arrogância dos branquelos não foi em vão.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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