Como aceitar, aprovar, ouvir e continuar votando em representantes de um segmento social que não consegue diferenciar os sete tipos de ideologia. Para os chamados patriotas, aqueles que só entendem de conservadorismo, fascismo e capitalismo, fora desses conceitos radicais só existem os comunistas, anarquistas e nazistas. Como normalmente os baderneiros e golpistas fazem parte do grupo afeito ao radicalismo, não há hipótese de eles conviverem com o pensamento democrático, hoje o objetivo maior de boa parte do planeta Terra, incluindo, obviamente, o Brasil de pelo menos metade mais dos 213 milhões de brasileiros.
Adicionando os “patriotas” vinculados à seita bolsonarista na turma dos contrários, as exceções são basicamente as mesmas do século passado. Ainda que temporariamente, não é nenhum exagero anexar os Estados Unidos de Donald Trump nessa seleta lista de países que adoram flertar com a tirania. Sem discurso mais alentado, incapacitada politicamente, perdida entre si e bemóis e orgulhosamente leiga em conceitos ideológicos, a extrema-direita insiste em tentar colar no presidente Lula a pecha de comunista para ganhar a eleição de outubro.
Se não inventarem outra lorota, perderão novamente a disputa e provavelmente ficarão sem o primeiro e último parágrafos do pífio sermão criado pelo conservadorismo manifestamente pastoral com a clara intenção de se opor àquele que, mesmo sem distintivo militar ou diploma universitário, sabe o que diz, o que faz e como cortar as asas dos abutres desdentados. Sou brasileiro e pouco me importa se o governante é ou será de direita, de esquerda ou de centro. Importante é que ele governe para todos, independentemente das ideias dos que lhe torcem o nariz.
Dizer que o Brasil governado pelo petismo é comunista é o mesmo que afirmar que focinho de porco é tomada. Mais do que adeptos contumazes das fakes, espalhar tal heresia é sinônimo de ignorância, amadorismo, desconhecimento e, em alguns casos, pertencimento ao baixíssimo clero da política nacional. Como digo a mim mesmo nos momentos de reflexão marxista, tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Por falar em Karl Marx, é dele a frase que talvez justifique a crise existencial entre os conservadores e fascistas e a suposição de que Lula é comunista: “O todo que se opõe à classe trabalhadora é a classe dominante”.
Embora a patriotada não alcance, a expressão apenas sintetiza a visão crítica do filósofo e economista alemão sobre a estrutura social capitalista e a profunda injustiça que ela gera. Ou seja, nada tem a ver com o comunismo imaginado pelos extremistas à direita. Como os maluquetes adoram meias verdades, vale lembrá-los que o mais perto que o Brasil já esteve do comunismo foi em 1958, quando a Seleção Canarinho enfrentou e venceu por dois a zero a temida União Soviética na Copa do Mundo da Suécia.
A partida foi histórica por marcar a estreia de Pelé e Garrincha juntos na equipe titular, à época comandada pelo técnico Vicente Feola. Informação irrelevante para os leigos e limitados ao bolsonarismo tacanho. Para esses, Lula e seus simpatizantes são comunistas e ponto final. São os camaradas que guardam a Lamborghini, a Ferrari e o Porsche na garagem do laranja e sai às ruas dirigindo um Celta com medo da taxação de grandes fortunas. Fico mudo ou pergunto alguma coisa sobre esses? Prefiro o silêncio, que é a mais perfeita expressão do desprezo.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais
