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Brasil não está em disputa, mas em exaustão

Há eleições que nascem de projetos. Outras, de rupturas. A de 2026 nasce de algo mais prosaico e, por isso mesmo, mais difícil de captar em pesquisas tradicionais: o cansaço. Não um cansaço barulhento, desses que viram palavra de ordem. É outro. Um desgaste acumulado, silencioso, que atravessa conversas privadas, mesas de bar, grupos de família e até aquelas longas pausas antes de alguém responder uma pergunta simples sobre política. Quando a resposta demora demais, quase sempre não é falta de opinião. É excesso de saturação.

O Brasil já viveu isso antes. Em momentos distintos da sua história recente, ciclos políticos longos produziram não apenas oposição organizada, mas algo mais profundo: a sensação difusa de que o debate perdeu utilidade prática. Foi assim no final da ditadura, quando o desejo não era ideológico, mas respiratório. Foi assim após anos de hiperinflação, quando o eleitor não queria discursos, queria normalidade. E foi assim também em outros períodos em que o embate simbólico seguiu existindo, mas a maioria silenciosa já tinha mudado de assunto por dentro.

O que se desenha agora guarda semelhanças. O país seguirá polarizado, não há ingenuidade nisso. Os polos continuarão ocupados por convicção, identidade e, em alguns casos, vocação para o confronto. Mas uma parcela grande da sociedade não chegou ali por adesão ideológica profunda. Chegou por falta de alternativa. Empurrada. Apertada. Encurralada num debate binário que não oferecia saída lateral.

Essa é uma distinção importante. Os extremos permanecem porque acreditam. A maioria que hoje habita esses espaços o faz porque não encontrou onde repousar. E repousar, aqui, não significa alienação. Significa poder discordar sem ter que gritar, apoiar sem virar militante, criticar sem ser imediatamente enquadrado.

Há, portanto, um deslocamento em curso que não aparece nos slogans. Um movimento de retorno ao equilíbrio, não como virtude moral, mas como mecanismo de defesa social. Não é o fim do conflito, é a busca por um ponto de menor atrito. O pêndulo, quando vai longe demais, não retorna por nostalgia do centro, mas por fadiga dos extremos.

Isso ajuda a entender por que tantos discursos continuam altos enquanto a atenção coletiva cai. O debate segue inflamado, mas a audiência já não reage como antes. A indignação, quando repetida à exaustão, perde potência. E o eleitor, mesmo aquele politizado, começa a escolher menos pelo entusiasmo e mais pela previsibilidade. Não é um voto de paixão. É um voto de contenção.

No plano nacional, isso cria um cenário curioso. A disputa existe, os nomes são conhecidos, as forças estão organizadas. Mas o clima não é de expectativa, é de tolerância. Tolera-se mais do que se acredita. Defende-se menos do que se justifica em público. E cresce a distância entre o discurso que circula e o sentimento que se acumula.

No Distrito Federal, esse fenômeno ganha contornos próprios. Brasília não reage bem ao improviso prolongado. A cidade convive diariamente com o peso das instituições e desenvolveu, ao longo do tempo, um radar sensível para aventuras políticas. Aqui, a retórica pode até passar, mas não governa sozinha. A preferência costuma recair sobre quem transmite controle, método e alguma capacidade de manter as engrenagens funcionando sem sobressaltos desnecessários.

Isso não significa aversão à mudança. Significa seletividade. A mudança aceita é aquela que não ameaça a rotina institucional. É uma política menos épica e mais operacional. Menos discurso de salvação, mais garantia de funcionamento. Em Brasília, quem promete incendiar o sistema raramente convence quem depende dele para trabalhar todos os dias.

Tudo isso aponta para uma eleição que será decidida menos pelo volume da fala e mais pelo silêncio que a precede. Há um sentimento comum, ainda pouco visível, que atravessa grupos distintos. Pessoas que não se falam, não se seguem e não compartilham referências começam a experimentar sensações parecidas. Não é concordância. É exaustão compartilhada.

Talvez por isso a grande pergunta de 2026 não seja quem representa melhor um lado, mas quem oferece algum alívio ao ambiente. Quem reduz ruído. Quem não transforma cada gesto administrativo em manifesto. Pode parecer pouco inspirador. Mas, em ciclos longos, a política raramente é sobre inspiração. É sobre sobrevivência do cotidiano.

E aqui cabe uma observação quase bem-humorada, ainda que reveladora. Quando o eleitor começa a dizer “só quero que funcione”, não é porque ficou menos exigente. É porque já exigiu demais e foi pouco atendido. A simplicidade, nesse caso, não é pobreza de expectativa. É filtro.

O país não está exatamente em busca de novidade. Está em busca de pausa. A eleição de 2026 tende a refletir isso. Não como ruptura explícita, mas como ajuste silencioso. Quem entender esse clima não vai precisar gritar. Vai falar baixo. E, curiosamente, será ouvido. Sigamos.

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