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Brasil precisa de oração para mudar em 2022

Em situação de quase falência política, econômica, sanitária, cultural e, agora, de valores e de civilidade, o Brasil está muito distante física e politicamente da Bielorrúsia, cujo ditador, Alexander Lukashenko, se vestiu de poderoso absoluto, interceptou e desviou um avião para prender o jornalista e dissidente Roman Protasevich. A criminosa iniciativa não só escandalizou a comunidade internacional, mas gerou uma série de represálias dos europeus, entre elas sanções comerciais e restrições aéreas, além do pior dos cenários para um mandatário, que é o isolamento político de um dos últimos ditadores do Velho Continente. No entanto, estamos bem próximos, considerando o desejo incontrolável da trupe bolsonarista em seguir o modus operandi do regime de Lukashenko.

O problema é que, no caso da maior nação da América Latina, entre o querer e o fazer há um abismo indecifrável. Como disse em outra oportunidade, o Brasil não é a Turquia ou a Nicarágua, tampouco uma daquelas republiquetas africanas onde qualquer um se fantasia de militar, assume o governo e, por desconhecimento, incompetência e despreparo, não faz o que deveria ser feito. Estamos isolados desde que o mundo percebeu que o governo brasileiro não tratou a pandemia com a responsabilidade exigida. Minimizou a Covid, fez pouco caso da disseminação do vírus, desdenhou da ciência, insistiu em medicamentos ineficazes, não se preparou para as variantes e não percebeu a tempo que só a imunização poderia conter a doença. O resultado é trágico: 454,4 mil mortes e 16,2 milhões de doentes.

Vivemos sob pressão, mas ainda não experimentamos indicativos claros de que estamos na corda bamba das relações com o mundo globalizado, embora já tenhamos nos transformado em galhofa intercontinental. A última delas foi apenas uma brincadeira, mas comprova com absoluta clareza que não somos mais vistos como já fomos em dias mais gloriosos. Nessa quarta-feira (26), no fim da audiência geral no Vaticano, o papa Francisco recebeu o padre brasileiro João Paulo Souto Victor, da diocese de Campina Grande. Após um pedido de benção para o povo brasileiro, o pontífice, de forma descontraída e sem liberar uma para o santo, sapecou: “Vocês não têm salvação. Bebem muita cachaça e rezam pouco”. Por mais que tenhamos o argentino Jorge Mario Bergoglio em boa conta, não devemos olvidar que a brincadeira é séria. Tudo isso é reflexo da insignificância de nossa atual política.

São tempos dolorosos, sombrios, negacionistas, sem oxigênio, de gestão questionável, de desprezo pela vida, de muitas falácias e de apego exagerado ao ego. Há quem diga que sinceridade demais machuca, mas não há dúvida de que a mentira causa estrago muito maior. Ou seja, é questionável achar que Francisco foi menos verdadeiro com o Brasil do que o general Eduardo Pazuello com os brasileiros na CPI da Covid. “Que vantagem têm os mentirosos? A de não serem acreditados quando dizem a verdade”, perguntou e respondeu Aristóteles. Aproveitando a oportunidade papal, alguém usar de tons inquisitórios para acusar outrem de cachaceiro é se preocupar demais com a vida alheia. Só porque a 51 é bebida de pobre? Acho que é por aí, pois jamais ouvi denominarem os bebedores de whisky, vodka ou rum de uisqueiro, vodkeiro ou rumzeiro. Obviamente que não me refiro a Francisco, que usou o termo cachaça apenas metaforicamente. Didaticamente, Francisco vê o Brasil em um “porre” político interminável. O chá de boldo serão as urnas em 2022.

Quem acompanha o noticiário desde o início do papado sabe bem do que estou falando. O problema brasileiro está naqueles que se acham superiores, acima do bem e do mal. São incapazes de olhar o próprio rabo. Respeitosamente, costumam ser os piores. O exemplo é claro. Em fevereiro de 2020, quando Francisco recebeu Lula em audiência, a cúpula do bolsonarismo postou numerosos vídeos. Preconceituosas, as críticas à Igreja soaram com inveja. É a máxima de quem desdenha quer comprar. É fato que vivemos um período pródigo em corrupção. Qual a diferença de ontem para hoje? Elegemos um governo que jurou extirpar esse cancro social. No entanto, esse mesmo governo permitiu a “passagem da boiada” enquanto milhares de brasileiros morriam de Covid. Nada com um dia atrás do outro. “Nenhum mentiroso tem memória suficientemente boa para ser um mentiroso de êxito”.

Lapidar e oportuna, a frase cunhada por Abraham Lincoln mostra que o pior do ser humano é tentar ser o que não é. A “piada” do papa poderia ser entendida como uma mensagem mais ampla. Todavia, é mais fácil entendermos conforme nossos interesses. Temos medo das verdades. Elas nos assustam porque são a prova inequívoca de que ainda não aprendemos nada do que é viver civilizadamente. Claro que precisamos de oração. E muita. Não temos salvação porque parte do povo prefere as armas às ideias; o regime perpétuo à reconciliação; o golpe à democracia; a tirania ao cumprimento das leis. Lembro de 1958, quando o avião fretado pala seleção brasileira de futebol, campeã do mundo na Suécia, fez uma escala em Roma. A bordo estava o locutor esportivo Jorge Curi, de voz estridente. Toda delegação foi recebida na Capela Sistina pelo pontífice da época, o italiano e sisudo João XXIII. Quando o santo padre apareceu na sacada, Curi gritou: “Viva el papa”. João XXIII saiu em disparada e até 1963, quando passou o bastão, nunca mais recebeu um brasileiro. João Paulo II e Francisco quebraram o gelo. Viva el papa Francisco.

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