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Brasil vive ano eleitoral sob a sombra de Washington

À medida que o Brasil se encaminha para uma das eleições mais disputadas de sua história recente, uma presença externa começa a ganhar peso no debate político nacional: a dos Estados Unidos. Após relatos de interferência eleitoral em 2025 em outros países da região, e considerando diversos eventos recentes no gigante sul-americano, crescem as vozes que questionam até que ponto a batalha eleitoral também se desenrola além das fronteiras nacionais.

A questão ganhou força a partir de episódios específicos, como as posições assumidas por políticos de Washington, as iniciativas sobre segurança regional e a organização internacional do Bolsonarismo, que foram interpretadas por diferentes setores como sinais de possível interferência na preparação para as eleições de outubro próximo.

A congressista republicana dos EUA, Maria Elvira Salazar, aliada do presidente Donald Trump, afirmou em suas redes sociais que os brasileiros estão “fartos” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, segundo ela, “será derrotado nas urnas”.

Se fosse um incidente isolado, suas mensagens poderiam passar despercebidas em meio ao abundante fluxo diário de informações, mas a mídia local inseriu essas declarações em um contexto mais amplo de mobilização de legisladores conservadores dos EUA que buscam influenciar o debate político em países da América Latina.

Outro episódio que elevou o nível de alerta foi a participação do senador Flávio Bolsonaro, em 28 de março, na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada no estado americano do Texas. Nesse fórum, considerado um dos principais espaços do conservadorismo americano, o candidato presidencial de direita reforçou seu alinhamento com Trump, a quem chegou a prometer recursos naturais brasileiros caso consiga vencer as próximas eleições.

Durante seu discurso, o filho mais velho do ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro (2019-2023) pediu que governos e instituições estrangeiras “monitorassem a liberdade de expressão” no Brasil e exercessem pressão diplomática para garantir o que ele chamou de eleições livres e justas.

Além disso, ele chegou a afirmar que o Brasil será o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o gigante sul-americano é a solução dos Estados Unidos para romper sua dependência da China em relação a minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.

Tais palavras foram denunciadas por legisladores, membros do governo de Lula e meios de comunicação como capitulacionistas e contrárias aos interesses do país.

O deputado federal Lindbergh Farias, do Partido dos Trabalhadores (PT), declarou no canal X que o senador “foi aos Estados Unidos para cumprir o papel que escolheu: o de fantoche de Donald Trump contra o próprio Brasil” e o acusou de “tratar minerais raros e recursos naturais como ativos disponíveis para estrangeiros”.

Suas palavras provocaram uma reação do próprio Lula, que acusou Flávio Bolsonaro de buscar o apoio de Trump para interferir nas eleições brasileiras.

Durante uma reunião com seu gabinete, o chefe de Estado referiu-se à participação na CPAC como uma busca por influência, ao mesmo tempo que criticou a postura do presidente dos EUA em relação aos conflitos internacionais e instou seus ministros a reagirem à interferência estrangeira.

A tensão gerada por essa questão aumenta pelo fato de que, algumas semanas antes, reportagens da imprensa mencionaram o interesse dos Estados Unidos em classificar os grupos criminosos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

A proposta, apoiada pelo círculo íntimo de Bolsonaro, gerou forte rejeição em outros setores do Brasil, com analistas e líderes políticos argumentando que tal decisão poderia abrir caminho para mecanismos de intervenção extraterritorial sob o pretexto de combate ao terrorismo.

O governo brasileiro indicou que essas organizações são tratadas como grupos criminosos dentro do marco legal nacional e argumentou que qualquer ação nessa área deve respeitar a soberania do país. Embora se estime que a medida possa abrir um precedente para intervenções em questões de segurança interna, um dos temores das autoridades brasileiras é que, com essa designação, as operações do PCC e do CV se tornem alvos de ataques militares dos EUA, segundo diversas reportagens.

De acordo com a CNN Brasil, o PT teme que o tema seja usado por setores da oposição, após Flávio Bolsonaro ter entregado a uma delegação dos EUA, em maio de 2025, um dossiê preparado por autoridades de segurança do Rio de Janeiro e de São Paulo que busca vincular as atividades das referidas facções criminosas ao terrorismo.

A tudo isso se somam os sinais de alerta que vêm sendo observados no cenário regional, após as acusações de interferência eleitoral por parte dos Estados Unidos nas eleições legislativas da Argentina e nas eleições presidenciais de Honduras em 2025. Segundo a CNN, mesmo antes da polêmica sobre facções criminosas, o círculo íntimo do Executivo brasileiro já avaliava a possibilidade de uma ofensiva política de Trump na região, em um ano em que também haverá eleições em países como Peru e Colômbia.

O cenário interno brasileiro amplifica as preocupações, já que as eleições de outubro se configuram como altamente disputadas, com Lula e Flávio Bolsonaro como os principais candidatos.

As pesquisas mais recentes mostram os dois rivais praticamente empatados em cenários de segundo turno, o que aumenta a sensibilidade a qualquer fator externo que possa influenciar o resultado.

Para alguns especialistas, a influência estrangeira não se manifestaria necessariamente por meio de intervenções diretas, mas sim por meio de mecanismos mais sutis, como apoio político, construção de narrativas, pressão diplomática e campanhas digitais.

A este respeito, os especialistas apontam que atores externos podem influenciar os processos eleitorais através da utilização de redes sociais, bots e campanhas coordenadas, uma prática já documentada em diversos contextos a nível global.

Nesse contexto, o presidente Lula alertou diretamente sobre o papel da desinformação no atual cenário eleitoral, como quando, em fevereiro passado, afirmou que 2026 deveria ser “o ano da verdade” e pediu o combate ativo às campanhas de manipulação.

“Quem mente deve ser exposto. Não se pode ver uma mentira no celular de alguém e deixar impune”, enfatizou o líder, que tem alertado constantemente sobre o impacto das notícias falsas na percepção pública e na qualidade do debate democrático.

Dadas as circunstâncias externas e internas, e à medida que a disputa eleitoral altamente polarizada avança, os alertas do chefe de Estado podem parecer cada vez mais necessários.

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