Há um clima de terra arrasada em Brasília, a capital onde há silêncios que fazem mais barulho do que discursos em plenário cheio. E poucas bocas mudas, neste início de semana, pesam tanto quanto a de Daniel Vorcaro. Tudo porque no subterrâneo refrigerado onde a República costuma guardar seus segredos mais caros, cresce a sensação de que, se o banqueiro resolver abrir a boca, o eco não ficará restrito às paredes do mercado financeiro. Pode subir escadas, atravessar gabinetes, alcançar os diferentes Plenários da Praça dos Três Poderes e entrar sem pedir licença em gabinetes do Palácio do Planalto, onde muitos já aprenderam a tratar escândalos como simples ruídos administrativos, mas depois sentem o impacto da explosão.
Desde que a engrenagem judicial começou a apertar em torno do chamado Caso do Banco Master, a cidade passou a cultivar aquele velho hábito nacional de falar baixo em restaurantes, desligar celulares em reuniões e trocar nomes por apelidos. Não é mera prudência institucional, mas porque a hipótese de uma delação premiada transformou o ambiente em terreno minado. Há senadores, deputados, operadores, ministros, ex-ministros, empresários, conselheiros de ocasião e financistas veteranos olhando para o teto, como quem tenta convencer o próprio destino a esquecer compromissos antigos.
O temor não nasce apenas do que já está formalmente sob investigação, mas do que ainda pode emergir de novos vazamentos seletivos, uma modalidade brasileira de gotejamento político em que cada revelação parece calculada para atingir alguém, proteger outro e manter a máquina da tensão permanentemente ligada. Entre cochichos de bastidor, voltam a circular nomes que ninguém pronuncia em voz plena sem antes olhar para os lados. A título de exemplo, Joesley e Wesley Batista, JBS, PicPay, André Esteves e BTG Pactual.
Na ala política, a inquietação atravessa o eixo tradicional do poder e encontra abrigo também na Bahia, onde próceres do Partido dos Trabalhadores aparecem no radar dos comentários de corredor. São Rui Costa, Jaques Wagner e Jerônimo Rodrigues. Não por acusação formal consolidada, mas porque a política brasileira transformou proximidade institucional em matéria-prima de suspeitas antes mesmo que os fatos completem a travessia. Mas nunca é demais lembrar que onde há fumaça, há fogo.
No centro dessa névoa reaparece também o nome de Augusto Lima, associado ao Credcesta, um mecanismo que, nos bastidores, ganhou contornos de personagem de romance policial tropical fantasiado de crédito popular, com engenharia financeira sofisticada e uma rede de padrinhos suficientemente robusta para que ninguém trate o assunto com ingenuidade. Saliente-se que quando um produto financeiro cresce depressa demais, em Brasília logo surgem perguntas sobre quem empurrou a engrenagem, quem assinou distraidamente e quem agora prefere jurar que jamais viu a máquina funcionando.
O problema é que delações têm lógica própria, uma vez que começam prometendo pouco, depois descobrem utilidade pública e terminam produzindo terremotos institucionais. É por isso que tanta gente corre para colocar panos quentes antes mesmo de o fogo aparecer. Mesmo porque, é sabido que muitos incêndios que começam no cofre passam pelo Legislativo, Executivo e Judiciário, atravessam bancos, roçam partidos de centro, de direita e de esquerda, e só terminam quando alguém suficientemente ameaçado decide salvar a própria pele.
Nas próximas 72 horas, quem mais teme o barulho não é necessariamente quem aparece primeiro nas manchetes, mas justamente aqueles que aprenderam a sobreviver longe dos refletores. São os operadores de confiança, intermediários discretos, financistas de gabinete e políticos acostumados a atravessar crises pela porta lateral. Porque, se novos vazamentos seletivos vierem à tona, o abalo pode atingir simultaneamente três andares da República: 1) o mercado, onde grupos financeiros disputam influência e proteção; 2) o Congresso, onde parlamentares de diferentes ideologias conhecem bem o peso de determinadas relações; 3) e, o Executivo, onde qualquer sombra sobre nomes ligados ao núcleo do poder produziria ruído imediato em um momento em que o governo tenta vender estabilidade.
Se Daniel Vorcaro realmente falar, não será apenas um banqueiro tentando reduzir danos. Será mais um capítulo da velha liturgia nacional em que homens do dinheiro, quando emparedados, lembram subitamente que nunca estiveram sozinhos. Não é a primeira vez que em Brasília, quando um banqueiro ameaça falar, não faz tremer apenas cofres. Ao contrário. Quando não queimam por completo, chamuscam biografias cuidadosamente maquiadas, alianças montadas na penumbra e patriotismos de ocasião, desses que discursam em nome da República durante o dia, mas à noite telefonam aflitos para saber se o próprio nome já apareceu na próxima página do inquérito.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
