No xadrez político de Brasília, onde alianças valem mais que discursos e a aritmética eleitoral costuma ser implacável, a governadora Celina Leão (PP) avança como quem entende o tabuleiro e antecipa os movimentos do adversário. A poucos meses das eleições de outubro, o cenário que se desenha no Distrito Federal é, no mínimo, confortável para quem ocupa hoje a cadeira principal do Palácio do Buriti.
Celina fez o que a política exige dos pragmáticos, abrindo o leque, ampliando pontes e construindo um campo de alianças que não pede identidade ideológica, mas compromisso eleitoral. Da direita à centro-esquerda, passando pelo centro (também conhecido como território fluido onde se decidem eleições), a governadora conseguiu reunir forças que, em outros tempos, mal dividiriam a mesma mesa. Não se trata de afinidade doutrinária, mas de convergência de interesses. E, em política, isso costuma ser mais do que suficiente.
Enquanto isso, do outro lado do espectro, a esquerda parece ter optado pelo caminho mais tortuoso, com uma acentuada fragmentação. Partido dos Trabalhadores, Partido Socialista Brasileiro, Partido Democrático Trabalhista e Partido Socialismo e Liberdade caminham para lançar candidaturas próprias ao Buriti, cada qual defendendo seu espaço, sua narrativa e, sobretudo, seu projeto particular de poder. O resultado dessa pulverização é previsível, com divisão de votos, enfraquecimento coletivo e dificuldade quase estrutural de construir uma alternativa viável ao grupo que hoje governa.
A eleição, que em tese poderia caminhar para um segundo turno competitivo, começa a ganhar contornos de definição precoce. Isso porque, ao concentrar apoios diversos e enfrentar uma oposição fragmentada, Celina Leão amplia suas chances de atingir o percentual necessário para liquidar a disputa ainda na primeira etapa. Não seria a primeira vez que Brasília assiste a um desfecho assim, e, ao que tudo indica, pode não ser a última.
Há, claro, variáveis em aberto. A campanha ainda não ganhou as ruas com a intensidade típica do período eleitoral, e fatos novos, como escândalos, alianças inesperadas ou reviravoltas jurídicas sempre podem alterar o rumo da disputa. Mas, até aqui, o roteiro favorece quem conseguiu transformar diversidade política em ativo eleitoral e adversários em peças isoladas de um jogo coletivo que nunca se concretizou.
A verdade é que enquanto a esquerda debate consigo mesma quem deve liderar, Celina Leão segue liderando o processo. E, em política, quem define o ritmo da corrida costuma chegar primeiro à linha de chegada.
