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Centrão de jabutis é novo script de Bolsonaro

Por conta dos acontecimentos dos últimos dias, os roteiristas do governo Bolsonaro terão de rever com urgência o que estavam digitando para apresentar ao chefe o que seriam as primeiras falas da novela política de 2022. A prisão e indiciamento de boa parte da milícia de Trump mostrou que a turba fantasiada que, semana passada, invadiu o Capitólio é muito mais fake do que fato, demasiadamente mais mambembe do que defensora de ideias. Isso quer dizer que os redatores palacianos terão de apagar o que já estava escrito e reformular integralmente o script do bolsonarismo. Em outras palavras, repetir o espetáculo que ameaçou a democracia do mundo não será tolerado em qualquer arremedo de democracia, imagina em uma consolidada como a nossa.

E não é retórica, muito menos galhofa falar da consolidação de nossa democracia. Em 1985, quando Tancredo Neves e José Sarney venceram Paulo Maluf no Colégio Eleitoral, experimentamos os primeiros sopros de liberdade, após duas décadas e meia de penitências. Não foi o melhor dos inícios, mas, na sequência, Fernando Collor, o falso caçador de marajás, acreditou que podia governar soberanamente sem apoio do Congresso. Felizmente não vingou e foi apeado com pouco mais de dois anos de mandato. Foi sucedido por Itamar Franco, depois Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma e Temer, todos com alguma coisa de ruim, mas, sem medo de errar, com acertos relevantes.

E agora? Por enquanto, só ameaças, propostas de rupturas, xingamentos e negacionismos. Quem acompanha a política brasileira pelo menos desde a Constituinte, em 1988, sabe que o Centrão do toma lá da cá existe muito antes de Bolsonaro tirar os suspensórios. Dois dos maiores expoentes do grupo, o paulista Roberto Cardoso Alves e o pernambucano Ricardo Fiúza foram seus mentores. Direitões por conveniência, sabiam como poucos plantar os “jabutis” que os seguidores do bolsonarismo ainda procuram uma árvore firme para colocar o que sugere autonomia policial nos estados. No passado, os integrantes desse grupo jamais se intimidaram com as críticas. Os de hoje ameaçam, xingam e agridem.

A sugestão é embrionária – ou não -, mas o próprio Jair Bolsonaro, com apoio visceral do ministro da Justiça, André Mendonça, apadrinha dois projetos para retirar dos governadores o comando constitucional das polícias estaduais. Se conseguisse – está no passado porque será um absurdo aprovar tal proposição -, o ocupante do Palácio do Planalto estaria com o caminho definitivamente pavimentado para o golpe. É uma jogada de quem aposta no pior, mas não é de mestre, pois falta o principal no jogo político: combinar com os russos, representados pelos chefes dos governos locais e por militares da ativa, que já se manifestaram contra mais essa ação intimidatória do presidente.

Ao apostar na candidatura do deputado Arthur Lira (AL) para a presidência da Câmara, Bolsonaro, que não dá ponto sem nó, certamente está vislumbrando a possibilidade de, lá na frente, assumir o comando do bloco. Novamente faltará o acerto com os russos de hoje, que cobram faturas muito mais pesadas do que os de ontem. Mesmo sem mandato, o carioca Roberto Jefferson sabe como circular e, certamente, já comprou um novo caderninho de anotações sobre recursos para o caixa do PTB. Faz parte do seu modus operandi.

Engana-se quem pensa que os acenos do presidente da República ao Centrão começaram agora. Essa expertise vem de longa data. Ele fez parte do período mais reforçado política e financeira do Partido Progressista, antes Partido Progressista Brasileiro, e, embora tenha curtido outras siglas partidárias nanicas, sempre militou nas fileiras e nas cores da legenda. Conviveu com o que de melhor já se produziu no cenário político do país, entre eles Paulo Maluf, Mário Negromonte, Pedro Corrêa, José Janene, Benedito Domingos, Celso Russomano e Ricardo Barros, alguns recolhidos, cumprindo domiciliar ou simplesmente ignorados pelos eleitores. Relevante é lembrar que a maioria deles já atuou como líder, vice-líder e até ministro dos governos do PT. Ou seja, trabalham para quem melhor paga.

Lembremos que, conforme levantamento divulgado há dois anos pelo Congresso em Foco, um em cada três deputados era suspeito de ter cometido algum tipo de crime. De acordo com a pesquisa, dos 513 integrantes da Câmara na época pelo menos 178 respondiam a inquéritos na Justiça. Nessa situação estavam 24 dos 49 parlamentares do PPB. Muito pouco provável que os números tenham mudado, sobretudo porque os nomes pepebistas são praticamente os mesmos.

Parodiando o senhor Ricardo Santoro, do Lago Sul de Brasília, é por causa da necessidade de manter o status quo que os deputados e senadores atuais – não apenas os do PP – que nas caixas de ovos vem escrito contém ovo. Santoro cunhou a maravilhosa frase como referência dos negacionistas da vacina contra o Covid-19. Nada mais justo do que elogiar os inteligentes. Nessa casta podemos incluir os pepebistas – também os petebistas -, que não estão nem aí para o nome, sobrenome ou partido do presidente da República. Querem fazer parte. Como disse certa vez o ex-senador e ex-ministro Jarbas Passarinho, “às favas com os escrúpulos”.

A verdadeira frase – “às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência” – foi modificada em ata, sem prejuízo de sentido (as “favas” foram trocadas pela conjugação verbal “ignoro”), e dita pelo então ministro do Trabalho e Previdência Social durante a reunião do AI-5, em 1968. O presidente da República era o general Costa e Silva, que antecedeu e sucedeu, respectivamente, os também generais Castelo Branco e Garrastazu Médici.

Além de Passarinho e de Costa e Silva, participaram dessa famigerada reunião 14 ministros, entre eles Delfim Netto, da Fazenda, o único vivo e que, aos 92 anos, não se arrependeu da autoria de uma assinatura. Augusto Rademaker (Marinha), Carlos Simas (Comunicações), Costa Cavalcanti (Minas e Energia), Gama e Silva (Justiça), Hélio Beltrão (Planejamento), Ivo Arzua (Agricultura), Leonel Miranda (Saúde), Macedo Soares (Indústria e Comércio), Lyra Tavares (Exército), Souza Mello (Aeronáutica), Magalhães Pinto (Relações Exteriores), Mário Andreazza (Transportes) e Tarso Dutra (Educação) devem estar mudos em seus túmulos.

Como nos dias atuais, a frase não foi de todo perdida. Virou uma peça de teatro brasileira. Do gênero comédia, foi escrita por Juca de Oliveira e dirigida por Jô soares. Do elenco participaram Bibi Ferreira, Adriane Galisteu, Neusa Maria Faro, Daniel Warren e o próprio Juca. Hoje, as frases se perdem no vento, não têm formato, são pouco ou quase objetivas, não ecoam por falta de eloquência ou de fundamentação e, lamentavelmente, carecem de astúcia e de inteligência. Foi-se o tempo em que os presidentes militares diziam alguma coisa aproveitável. Por conta do espírito democrático que sempre encarnei, não posso recuar e ser acometido de um sentimento normal entre os mais velhos que teimam em comparar nossos dias com tempos idos. Xô saudade.

*Mathuzalém Junior é jornalista profissional desde 1978

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