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Centro que já foi bolsonarista flerta para dividir confetes com Lula

Eleição 2022

Outrora legenda de um homem só, o ex-senhor dos anéis Valdemar Costa Neto, o Partido Liberal cresceu como uma onda nas eleições de 2022. Subiu aos céus se utilizando da limitada escada do clã Bolsonaro, despontando à época como a maior bancada da Câmara, seguido pela federação liderada pelo PT de Luiz Inácio. Até então, o PL tinha Valdemar como rainha da Inglaterra, pois o verdadeiro dono era ninguém menos que o antigo mito e atual presidiário Jair Messias Bolsonaro. Como o tempo não tira folga, de lá para cá o mundo girou e o que tinha de chegar, chegou.

Além de um moinho, o mundo gira igual roda gigante. No mesmo minuto em que a gente está no topo, o giro pode nos carregar para o lodo. Foi o que ocorreu com o moço do golpe fracassado, aquele mesmo que achava que o mundo da política girava à sua volta. Quando ele se tocou, a labirintite era irreversível. E deu no que deu. A roda da vida girou e recolocou o que estava revirado no seu devido lugar. Foi somente uma questão de tempo. Os que confundiram capitão de fragata com cafetão de gravata, hoje lamentam ter imaginado que o conhaque de alcatrão era a mesma coisa que uma catraca de canhão.

Da melancia na rotunda sobrou apenas uma melancolia profunda. Enfim, o focinho de porco nunca foi a tomada com a qual eles (os donos do mundo) tinham certeza de que domariam e transformariam o crocodilo em cocô de grilo. Às vésperas da terceira eleição presidencial disputada sob o mesmo mosaico político, a diferença é que, em outubro, poucos continuarão confundindo centavos novos com se sentar nos ovos. Embora se mantenha pesada, a lona circense da extrema-direita encolhe dia sim e outro também, devendo chegar ao pleito presidencial mais fragilizada do que sonham seus comandantes.

Em processo de consolidação para 2026, a União Progressista, fusão das siglas União Brasil e Partido Progressista, parece bolsonarista, mas mantém o perfil centrista de se alinhar ao grupo que oferece mais. Tanto que Ciro Nogueira (PP-PI), Arthur Lira (PP-AL) e Hugo Motta (União Brasil-PB) não escondem o flerte público com o presidente Lula, líder que, em troca da reeleição, os fez topar vestir a fantasia do PT, desfilar no mesmo bloco, dividir confetes e serpentinas e cantarolar, no outubro vermelho, a mesma marchinha do Lula 4. Tudo em casa.

Do outro lado da avenida do Palácio do Planalto, há uma família à beira de um ataque de nervos. Ou seria de asfixia? Tanto faz. Com a vantagem de Luiz Inácio na corrida presidencial para 2026, os políticos vinculados ao conservadorismo menos ortodoxos já começam a pensar em 2030. Sem a inclusão de Bolsonaro ou de alguém da família, a maioria desse grupo tem afirmado publicamente que o bolsonarismo virou obstáculo ao surgimento de uma direita que se apresente como alternativa democrática ao eleitorado nacional. Em outras palavras, definitivamente a família Bolsonaro não está incluída na proposta de reconciliação da direita com a democracia.

Resumindo, em lugar de ganhar a eleição a qualquer custo, como é do desejo do PL e das legendas visceralmente ligadas à tirania, a direita mais moderada e menos golpista luta pela reconstrução do campo conservador fechado com a democracia e sem ambiguidades. Na prática, é saber perder para depois tentar se levantar. Desde que acharam que a arara azul e a mocreia azul pousam na mesma palmeira, os membros da famiglia não admitem sequer sonhar com essa possibilidade. Preferem a morte ao cheiro forte da vitória alheia. Ou seja, ainda que saibam que catolicismo nada tem a ver com cataclismo, para eles o leite de rosas sempre será confundido com o leite das tetas da rosa chamada Brasil.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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