Na política brasileira há alguns ditados e teses nada acadêmicas que, sem margem de erro, definem o perfil da maioria esmagadora de nossos políticos. Diga-me com quem andas que te direi quem és, os cargos são temporários, os títulos provisórios, mas a maneira como tratamos os semelhantes será lembrada para sempre e na política não há amigos, apenas conspiradores que se unem são alguns dos provérbios que cada vez mais desencantam os eleitores. Entretanto, nenhum deles é tão preciso como aquele que delibera sobre o castigo para os que, a pretexto de se manter no poder, pulam de galho em galho e ainda esculhambam o ex-parceiro.
Aqui se faz, aqui se paga é o aforismo mais ilustrativo do conjunto de características do ex-todo poderoso senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do PP. Senador de segundo mandato graças à força do PT e do ex-amigo Luiz Inácio, Nogueira até pouco tempo se autoproclamava “o maior dos bolsonaristas”. Como o tempo é o senhor da razão, recentemente ele procurou o presidente Lula em busca de salvação política. Acostumado a viver sob a sombra dos outros, o senador nunca foi totalmente iluminado. Por isso, além de passar a impressão de parasita político, o moço é a própria simulação da bondade.
Na verdade, é a face oculta da maldade, aquela que reside na falsa percepção da generosidade disfarçada de benquerer. Eis a razão principal para a derrota anunciada na disputa pela reeleição ao Senado. Certo de que não tem mais espaço no Piauí, o Estado mais lulista do país, Ciro Nogueira, como todo filho pródigo, mas desalmado, tenta a todo custo voltar aos braços do pai. Traidor compulsivo, mas supostamente arrependido da entrega da alma pendular ao bolsonarismo, o parlamentar quer desfazer o acordo fechado com o Diabo nas eleições presidenciais de 2018 e 2022. A vida pune os traidores.
A punição a Ciro Nogueira é ficar sem mandato no pleito deste ano. Para evitar o que seria seu ocaso político, o senador aceita qualquer tipo de castigo, inclusive a “desonra” de romper publicamente com o queridinho Jair Bolsonaro. Disposto a manter a boquinha, Ciro Nogueira pediu ajuda ao agora lulista Hugo Motta (Republicanos-PB) e, provavelmente de joelhos, prometeu a Luiz Inácio, pule de dez na disputa presidencial, não apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, de quem o PP é aliado visceral. É o preço pela manutenção do poder.
Para garantir sua volta ao Olimpo da política nacional, o senador quer “apenas” que o PT concentre apoio no nome de Marcelo Castro (MDB), mantendo a outra vaga livre para decisão do eleitorado. Traidor emérito, Ciro sabe que, mais importante do que as bênçãos de Lula, é o aval dos caciques petistas no Estado. Gatos escaldados, o governador Rafael Fonteles, o ministro Wellington Dias e Fábio Novo, presidente estadual do PT, resistem à ideia, pois acreditam que, caso se confirme a aliança, a traição poderá ocorrer pela terceira vez. Embora Nogueira tenha forte influência sobre alguns prefeitos piauienses, até as paredes sabem que o apoio formal do Palácio do Planalto será decisivo para a vitória de quem quer que seja.
O problema é a tradição do partido do senador em aderir ao poder vigente. Ciro Nogueira é um exemplo clássico. Ele ascendeu politicamente na esteira do PT, mas depois demonizou a legenda e aderiu de corpo e alma à onda bolsonarista. Apesar da simpatia pela proposta centrista e do apreço pessoal de Lula ao ex-amigo, os petistas não esquecem o perfil traidor de Nogueira. Somente como ilustração, no segundo turno das eleições de 2018 Fernando Haddad venceu Bolsonaro com 77,1%. Em 2022, Lula obteve 76,8% dos votos válidos. Ou seja, mais petista impossível. Cupido do encontro, Hugo Motta também já recorreu a Lula para garantir sua reeleição na Paraíba. Ainda é cedo para qualquer manifestação definitiva, mas essa e outras movimentações políticas naturalmente convergem para um único resultado: o Lula 4.
