Qualquer brasileiro com mais de 40 anos há de se lembrar da indagação de uma fábrica de biscoitos sobre a qualidade do seu principal produto: O biscoito tal vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Aplicando o questionamento à segurança no Brasil, a grande pergunta é, além de lógica, óbvia ululante: É ruim por que ninguém trabalha ou ninguém trabalha por que é ruim? Para os contribuintes de Norte a Sul do país, certamente a resposta é a mesma: as duas coisas. E não é por falta de pelotões, regimentos, quartéis ou contingentes.
Mesmo com as facilidades da leitura via internet, permaneço jurássica, pois não consigo perder o hábito do jornal impresso. Leio pelo menos dois diariamente. Dias desses, ao folhear um deles, li fortuitamente que, considerando todo o planeta, o Brasil é a nação com mais representação policial. É polícia a dar com pau. Ou seria com o cassetete? Às vezes, pode ser com a baioneta, com a pistola e até com o fuzil. Algumas dão canetadas à torto, à direita e à esquerda. Embora sejam menos letais, essas geram desconfiança em 11 entre dez motoristas brasileiros.
Na extensa lista dos chamados representantes da segurança, temos de tudo um pouco, incluindo as polícias Federal, Militar, Civil, Rodoviária, Ferroviária, Metroviária, Penal, Legislativa, Judiciária, Científica, Portuária, do Exército, Marinha e da Aeronáutica. Na rabeira, mas também com grandes efetivos e custos altíssimos, incluímos a Força Nacional, o Corpo de Bombeiros, as guardas municipais, batalhões especializados e os temidos Detrans e Receita Federal e Estadual, considerados órgãos de fiscalização, mas constitucionalmente com poderes de polícia. Tudo isso sem contar os mastodontes chamados empresas de vigilância privada.
Os nomes são muitos, cada um mais pomposo, robusto e mais caro do que o outro. São dezenas de milhares de homens e mulheres fardados, armados, bem pagos, perdidos e alguns corruptos da cabeça aos pés. E quanto a nós, contribuintes e mortais? Literalmente entregues à própria sorte na rua, no trabalho e em casa. Com todo esse aparato de segurança, estar segura é como desfilar descalça no fio de uma navalha a uma altura de mil metros. Ou seja, apesar de séria, a segurança no Brasil não passa de uma piada sem graça. Talvez uma fantasia da Terra do Nunca.
Em 2025, conforme o Índice Global da Paz, o Brasil figurou entre os dez países mais violentos do planeta. Ou seja, apesar da enorme variedade de nomenclaturas, a segurança brasileira patina sobre o gelo a quase 100 quilômetros por hora. Em síntese, pagamos alto, mas segurança é como o caviar para expressiva parcela da população. A maioria só ouve falar. Pior do que o excesso de polícias, é o amontoado de leis inócuas e intangíveis. Como nossos políticos são eleitos para enganar o povo, as leis brasileiras são feitas para não serem cumpridas. Tudo a ver. Aliás, o maior desprezo às leis parte prioritariamente dos políticos, das autoridades policiais e dos bons advogados.
Como sabemos todos, os advogados conhecem profundamente as leis, mas, conforme provérbio popular jurídico, costumam ser amigos pessoais dos juízes. Infelizmente, o problema é cultural. Faz parte da cultura do país empurrar o caos da segurança para debaixo do tapete. Exatamente como fazem com a saúde e com a educação. E o que dizem os candidatos à Presidência da República ou aos governos estaduais? O de sempre, isto é, nada, que é igual a nada. Resumindo a repetitiva cantilena, as leis e as polícias brasileiras lembram uma melodia tocada por uma banda desafinada e cantada por políticos gagos. Torço para que uma nova Constituinte inclua o artigo 0 na Carta Magna, algo como “Todo brasileiro fica obrigado a se envergonhar de votar errado”.
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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras
