Como qualquer um que não tem papas na língua, não preciso pedir licença a ninguém para escrever o que penso, desde que, é claro, com a necessária e verdadeira coerência exigida pela pluralidade da sociedade brasileira. Não procuro espalhafatos, tampouco palhaçarias para pautar minhas narrativas. Infelizmente, elas são criadas por aqueles que deveriam se basear exclusivamente na seriedade e nos conceitos de integridade, moral e ética pregados por expressiva parcela dessa mesma sociedade que exige de todo o povo conduta e posições como as dela.
Partindo do pressuposto de que nem todos que amam o vermelho gostam do verde ou do amarelo, esse é um desejo impossível. Afinal, o que é palatável para os carcarás é intragável para os pombos. No Brasil de hoje, o que vemos e vivemos é uma absoluta inversão de valores. Os que são eleitos e pagos para nos unir são exatamente os que mais trabalham pela desunião. Dizer que o sistema político nacional, representado pelo Congresso e pelos parlamentos estaduais e municipais, se parece com um picadeiro é jogar pedras e duvidar da seriedade de uma secular instituição chamada circo.
Um dos principais nomes da filosofia ocidental, o grego Sócrates viveu defendendo a tese de que as pessoas devem guiar a vida pela reflexão e pela busca da virtude. Nascido em Atenas, por volta de 470 a.C, o pensador marcou sua trajetória pela simplicidade, pelo questionamento constante e, principalmente, pela defesa da ética acima de vantagens pessoais. Tantos séculos depois, as ideias de Sócrates, símbolo de integridade e de coerência, se mantêm super atuais.
Como sou brasileira e não ateniense ou grega, sei que não posso e não devo ensinar nada a ninguém. O máximo que me permito é fazê-los pensar. É o que menos fazemos no Brasil da polarização. Lembrando de um texto que li recentemente, cuja autoria me foge à memória, posso pelo menos aproveitar a proximidade das eleições gerais para sugerir aos eleitores que não transformem a política brasileira em um curral de fanatismo ou em um circo de palhaçarias capazes de fazer rir meia dúzia e de chorar dois, três ou 63 milhões de nacionais.
Não tenho o direito de pedir votos para esse ou aquele candidato. Entretanto, tenho o dever de lembrar ao distinto eleitorado que o Brasil de 2026 não merece novas experiências, tampouco programas circenses de governo baseados em mentiras, histrionismos e fanfarras. Independentemente do tamanho e da cor do meu patriotismo, peço que evitemos que as picuinhas entre sujos e mal-lavados acabem nos levando a cometer os mesmos erros de um passado bastante recente. Na prática, em nome de milhões de brasileiros, a sugestão é que priorizemos o amor e a civilidade em lugar do ódio e da barbárie.
Faz parte do jogo não gostar desse ou daquele candidato à Presidência, dessa ou daquela ideologia. Proibido ou desnecessário é limitar o balaio de políticos desonestos a apenas um postulante. É um fato que eles existem. O problema é negligenciar sobre os falsos honestos. Não ouçam e não leiam nada do que eu escrevo. Todavia, prestem atenção ao Sim e ao Não da urna eletrônica. A máquina não nos pergunta quem é mais bonito ou quem já roubou muito ou pouco. O que ela quer saber dos eleitores é qual candidato tem mais lucidez e menos paixão para governar 213 milhões de pessoas diferentes. A hora de dizer não ao circo é agora.
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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras
