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Congestionamento do 1º turno terá um 2º inevitável

As eleições presidenciais de outubro se desenham menos como uma disputa clássica entre dois projetos e mais como um cruzamento de interesses, vaidades e sobrevivências políticas. O cenário que se consolida aponta para um primeiro turno fragmentado e um segundo turno praticamente inevitável — salvo um terremoto político ainda fora do radar.

Luiz Inácio Lula da Silva entra na corrida buscando um feito inédito, que é um quarto mandato presidencial. Sua força continua assentada em três pilares bem definidos: base histórica da esquerda, ainda leal ao lulismo; capilaridade institucional, fruto do controle da máquina federal; e acordos pragmáticos com o Centrão, hoje mais interessado em acesso ao poder do que em coerência ideológica.

O problema para Lula não é a largada, mas a resistência ao longo da campanha. O governo enfrenta desgaste natural, cobranças econômicas, ruídos fiscais e uma base parlamentar que apoia mais por conveniência do que por convicção. O Centrão que hoje sustenta também é o primeiro a abandonar o barco se farejar derrota. Contudo, Lula chega competitivo ao segundo turno, mesmo não sendo imbatível.

No campo da centro-direita, o PSD de Gilberto Kassab tenta ocupar o espaço do “nem Lula, nem Bolsonaro”. Reúne nomes com densidade administrativa e eleitoral, a exemplo de Eduardo Leite, com discurso moderno e perfil urbano; Ratinho Júnior, ancorado em gestão e forte base regional; e Ronaldo Caiado, representante do conservadorismo institucional.

O problema é estrutural, porque há nomes demais e projeto de menos. A pulverização dificulta a consolidação de uma candidatura única capaz de enfrentar Lula no segundo turno. Kassab articula, mas o tempo é curto e os egos são longos.

Sem unificação, a centro-direita corre o risco de cumprir apenas o papel de fiel da balança, transferindo votos no segundo turno, mas jamais protagonizará a decisão.

É verdade que o bolsonarismo chega enfraquecido institucionalmente, mas ainda vivo eleitoralmente. Com Jair Bolsonaro fora do jogo, Flávio Bolsonaro, pelo PL, surge como herdeiro natural do capital político do pai.

As pesquisas indicam um dado incômodo para o Planalto. É que Flávio é hoje o único nome capaz de tirar Lula da zona de conforto. Seu eleitorado é menor do que em 2018 ou 2022, mas é altamente mobilizado, ideologicamente fiel e resistente à desconstrução narrativa.

O bolsonarismo não precisa crescer muito para ir ao segundo turno; basta não minguar para encaminhar um segundo turno como destino lógico. Com esse arranjo, o diagnóstico é claro: Lula tende a liderar o primeiro turno; a centro-direita fragmentada dificulta uma reação consistente; e o bolsonarismo, mesmo menor, mantém musculatura suficiente.

O resultado mais provável é um segundo turno polarizado, ainda que com novos nomes, mas velhos antagonismos. Não se trata apenas de esquerda contra direita, mas de continuidade contra ruptura, institucionalidade contra radicalização, governabilidade contra identidade ideológica.

A eleição de outubro não promete grandes surpresas no formato, mas promete alta tensão no conteúdo. O Brasil caminha para decidir não apenas quem governa, mas como governar em um Congresso fragmentado, um eleitorado polarizado e um cenário internacional instável.

O segundo turno não é uma hipótese. É, neste momento, o caminho natural do processo.

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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

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