Acumuladoras de poder, as criaturas que sobraram do criador devida e merecidamente recolhido à prisão não se calam. Ainda que de forma menos acintosa, as crias mantiveram a retórica antidemocrática. Como em um filme de terror, os discípulos do mito em situação de presidiário continuam agindo desatinadamente, como se fossem os donos do mundo. Não são e jamais serão. O difícil é dizer para eles e para seus fanáticos seguidores que não existe mais a macabra possibilidade de usar um suposto ativo político para assumir o controle absoluto da nação.
Hereditária e compulsivamente antidemocratas, os que insistem em se apresentar como patriotas esquecem que a democracia não é um sistema feito para garantir que os melhores sejam eleitos, mas para impedir que os ruins fiquem para sempre. Autora da máxima, a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher não disse, mas certamente pensou um dia que, muito mais do que apenas a lei da maioria, a democracia é a lei da maioria respeitando os direitos das minorias.
Patrimônio da nação brasileira, por ela centenas – talvez milhares – de brasileiros já morreram. Outros contaram e cantaram – e contam e cantam – suas vantagens. Por definição, o sistema democrático é prejudicial aos interesses da elite. Por isso, a defesa veemente da direita e da extrema-direita por parte dos ricos. Azar o deles. Para nossa sorte, democracia não é o paraíso, mas garante que a gente não chegue ao inferno.
Na visão da maioria dos brasileiros, o Brasil perfeito para 2026 é aquele em que a recessão democrática finalmente dará lugar à eterna vigilância. Ou seja, com os necessários cuidados, o país voltará à época em que, mesmo dividido partidariamente, havia respeito à pluralidade de opiniões e à liberdade de ideias. E pouco importa a que corrente ideológica seja o futuro presidente. Afinal, a democracia não pode se limitar à simples substituição de um governo por outro.
Mais importante do que uma democracia formal, é a democracia substancial. É desta que precisamos. Fazendo coro à ministra do STF Cármen Lúcia, a erva daninha da ditadura cresce sozinha. “Para que a democracia floresça, é preciso cuidar todos os dias”. Enfim, democracia não tem cor, gênero ou raça, mas sim compromissos. A exemplo de Albert Einstein, meu ideal político sempre foi, é e sempre será a democracia. Nesse sistema, são muito maiores as chances de todos serem respeitados como indivíduos e nenhum venerado.
O Brasil já teve um. Os Estados Unidos têm um. Ambos são a prova de que políticos do tipo ídolos falam o que quiserem e deixam para seus seguidores a tarefa de justificar suas asneiras. Infelizmente, parece que parte dos brasileiros e dos norte-americanos ainda não percebeu que um ídolo vale tanto quanto a capacidade intelectual de seus fãs. Tudo indica que, como o de lá, o povo de cá não consegue viver sem um Diabo. Como estimuladores de idólatras, o ex-líder do Brasil e o atual líder dos EUA sabem que um povo consciente é o maior medo de um candidato a governante mal-intencionado. Para não dizer que não falei de flores, rosas para todos aqueles que acham que a democracia é muito melhor do que o inferno da tirania.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978
