Décadas após sentar praça no jornalismo e depois de anos dedicados ao ramerrame, ao compromisso com as fontes e, de alguma forma, respeitando as decisões do patrão, descobri que ser livre, isento e respeitar a si mesmo, consequentemente ao que assina, é o melhor caminho para minha própria credibilidade. E pouco importa que meus escritos firam suscetibilidades, ideologias, políticos descompromissados com a verdade e com o povo e, principalmente, que desagrade àqueles que adoram ler o que lhes convém, ainda que sejam mentiras.
O tempo é de saravá para quem é de saravá, amém para quem é de amém e de luz para quem é de luz. Sobrevivi ao jornalismo profissional, romântico e etéreo de laudas, sem celular, laptop e com disputas ferrenhas por um orelhão. Vivi a melhor época da política brasileira e a fase áurea do futebol nacional. Era feliz e sabia. Ultrapassei o sombrio período de nuvens negras, temporais com raios fúlgidos e chuvas de balas. Às vezes ainda me destronca os neurônios a triste lembrança dos presidentes não reeleitos ou de mandatos curtos, do tipo voo de galinha.
Felizmente foram poucos, mas, como fantasmas políticos, eles não aceitam sair de cena. Do ponto de vista físico e emocional, agradeço aos céus por estar tomando mais cervejas do que remédios. No meu lead espiritual diário, registro que ainda estou bem distante das mãos que ajudam na hora da dor. Apesar de o Brasil estar pela hora da morte, eu permaneço dois passos à frente da inteligência artificial dos que bebem na caneca sem fundo do mestre dos horrores, surfam nas queimadas e sonham um dia serem levados ao paraíso pelo mito da quiromancia com os pés.
Escondida e à mercê de investidores exclusivamente ideológicos, a imprensa tem reagido pouco à crise instalada de Norte a Sul do Brasil. No pior de seu grau superlativo, o país do futuro vive a desgraceira do presente. Temos os piores eleitores do mundo, uma lástima de Congresso, uma Seleção Brasileira que não assusta mais a Venezuela e nem a Bolívia, um governo que perde tempo com Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira e um povo que se dividiu entre apostar na anarquia, no caos e na ilegalidade e lutar para não morrer de sede e de calor com a maior seca de nossa história.
Sem máscaras, desculpas, escoras, amarras ou mordaças, fujo das lógicas da esquerda e da direita. Faço isso baseado no acúmulo de informações sobre o uso cotidiano da lógica pelos mentirosos e enganadores. Hoje, o que quero é somente liberdade para fazer e escrever o que quiser e decência para fazer o que é certo. Consciente de que vivo e morrerei sendo criticado, desejo pelo menos autonomia e independência para viver sem paralelismos ou ideais irrealizáveis. É o meu livre arbítrio cobrando posições contra as crias e, principalmente, contra os criadores.
A esquizofrenia político-social do Brasil não faz parte do que eu havia sonhado para o dia em que deixasse de ser um inocente útil. Esse dia chegou faz algum tempo. No entanto, falta descobrir como recuperar o tempo perdido para tentar entender aonde querem chegar os extremistas e suas verdades inadequadas e ultrapassadas. Da mesma forma que não conseguirão anistiar os vândalos de 8 de janeiro de 2023, esqueçam Alexandre de Moraes. Além de utopia, derrubá-lo não é tarefa destinada a parlamentares lunáticos, antidemocratas e desordeiros. Estarei longe disso, mas o sonho jornalístico desse tipo de gente é acordar em um domingo tenebroso com a seguinte manchete: O crime organizado venceu. O Brasil é nosso. Minha manchete seria diferente. Jamais será. Provaremos isso em outubro.
………
Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras
