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Descrédito nos distritais abre caminho para mudança de até 60%

Foto/Carlos Gandra - Câmara Legislativa

A atual legislatura da Câmara Legislativa caminha para o fim sob um manto de desconfiança que não se dissipa com discursos protocolares nem com a liturgia dos cargos. Ao contrário: quanto mais se aproxima o calendário eleitoral, mais se evidencia o distanciamento entre os deputados distritais e a população que deveriam representar.

Nos últimos quatro anos, a Casa que deveria exercer o papel de vigilante do Executivo optou, em muitos momentos, por uma convivência excessivamente confortável com o poder. A fiscalização, essência de qualquer parlamento, foi substituída por uma atuação burocrática, tímida e, em alguns casos, conivente. O resultado é um Legislativo enfraquecido, que pouco contribuiu para o necessário equilíbrio institucional no Distrito Federal.

O desgaste não é abstrato. Ele tem nome, endereço e episódios que ecoam nos corredores da política e nas conversas de rua. O presidente da Casa, Wellington Luiz (MDB), viu sua imagem arranhada por denúncias envolvendo a ocupação de um lote irregular onde ergueu uma mansão, além de questionamentos sobre práticas de nepotismo. Situações que, mesmo sob o manto da presunção de inocência, deixam cicatrizes políticas difíceis de apagar.

No mesmo compasso, o vice-presidente do Legislativo, Ricardo Vale (PT), também enfrenta críticas que ressoam em sua base eleitoral. Há relatos de ações que teriam beneficiado comunicadores de Sobradinho e região, justamente seu reduto político, o que levanta dúvidas sobre o uso da estrutura pública para fins que extrapolam o interesse coletivo.

Esse conjunto de fatores alimenta um sentimento crescente de frustração. O eleitor brasiliense, cada vez mais atento e menos tolerante, começa a dar sinais claros de que não pretende repetir escolhas que considera equivocadas. Nos bastidores, analistas políticos e lideranças partidárias já trabalham com a perspectiva de uma renovação que pode chegar a 60% das cadeiras da Câmara Legislativa.

Não se trata apenas de alternância de nomes. O que está em jogo é uma possível mudança de comportamento. A sociedade cobra mais do que presença em plenário ou produção de emendas parlamentares. Quer independência, fiscalização efetiva e compromisso com o interesse público — atributos que, na avaliação de muitos, foram escassos nesta legislatura.

A próxima eleição, portanto, não será apenas mais uma disputa por cadeiras. Será, sobretudo, um teste de maturidade do eleitorado e uma oportunidade de redefinir o papel do Legislativo local. Se confirmada a onda de renovação, caberá aos novos parlamentares provar que aprenderam com os erros recentes e que a Câmara pode voltar a ser, de fato, a casa do povo, e não um endereço de conveniências.

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