Foi somente uma piscada de olhos e, quase sem perceber, me vi em fevereiro, o segundo mês do ano. Quase mais velho, também descobri que o Brasil não é mais o mesmo da minha infância e juventude. Como se um vírus tivesse nos atingido de baixo para cima, de cima para baixo e por todos os lados, voltamos à fase em que vivíamos amedrontados pela proximidade do abismo. Hoje o Brasil é um país onde os pobres morrem de fome e boa parte dos ricos morre de medo de ser pega pela Polícia Federal.
Lutando para ser uma república séria, o Brasil das maracutaias diárias obriga seu povo a conviver com as tensões do futuro e, principalmente, com as preocupações com o passado. Infelizmente, a falta da verdade tem afastado bons e antigos amigos, os quais temem o contágio do veneno. No país em que a necessidade urgente é combater o oportunismo político e os conluios noturnos, parece ter chegado a hora de todos endossarmos a remota tese de que não basta às nossas autoridades serem honestas.
Independentemente do poder a que pertençam, elas hoje têm o dever de parecerem honestas. O Dia D e a Hora H já vão longe. No Brasil de 2026, chegamos ao cúmulo do descrédito. Por mais absurdo que possa parecer, às vésperas de mais uma eleição presidencial, metade de mim quer acreditar que todas as pessoas podem ter um coração bom. Entretanto, a outra metade se assusta e se amedronta com as coisas que vê. Daí surge a tenebrosa dúvida: Em quem acreditar? Sinceramente, não sei mais.
Confesso que gostaria de acreditar em tudo que ouço, notadamente em que tudo que “eles” me dizem. O problema está na minha certidão de nascimento. É ela que insiste em afirmar que não nasci ontem. Conheço, mas não convivo com pessoas que só acreditam naquilo que lhes convém. Para evitar dissabores, prefiro a distância, pois normalmente elas não estão preocupadas com a verdade. Só aceitam ouvir aquilo que as faz se sentir melhor consigo mesmas.
Lamentável, mas a opção de alguns ainda é por acreditar somente naqueles que só têm decepções para oferecer. É verdade que, no Brasil de 2026, a confiança é igual ao vidro: quebrou, não tem volta. Ou seja, sem confiança, as verdades viram dúvidas. Elas hoje estão por toda a República. E pouco importa que os até então merecedores de confiança um dia tenham provado reputação ilibada, alto saber jurídico, jurado defender a pátria acima de tudo e de todos ou sido eleito para trabalhar para e pelo povo.
Antes de dar a César o que é de César, qualquer brasileiro precisa pensar longamente na mulher de César. Passados mais de dois mil anos, ela mantém o encargo de ser, mas prioritariamente de parecer ser quem é. Assim devem ser nossas autoridades, nossos banqueiros, nossos representantes no Congresso e nos parlamentos estaduais e municipais. O ideal é que eles soubessem que o mais poderoso alicerce da autoridade é a verdade.
Sem ela, tudo que não for republicano vira profano. Na era em que qualquer deslize pode levar uns e outros ao paredão, o povo não aceita mais conviver com cidadãos que buscam o poder apenas para que possam mentir com autoridade. No Brasil de 2026, o mais importante não é ter bens, autoridade ou poder. Fundamental é ser referência e fazer a diferença na vida das pessoas. Precisamos fazer nossa parte nas eleições de outubro. Torçamos para que o eleito (ou reeleito) não exale poder, que sussurre com autoridade e que, após eleito, indique para os demais poderes somente homens e mulheres com foco exclusivo no bem comum.
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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, tem uma velha Remington como troféu na estante da sala e usa um novo Notebook para escrever textos pontuais para Notibras
