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Dirigir sem habilitação no Nordeste tem seus percalços

No papel, a regra é clara como sol do meio-dia: dirigir sem habilitação é infração gravíssima, como manda o Art. 162 do CTB, e vira crime quando há perigo de dano, segundo o Art. 309. Multa pesada, pontos que nem existem na carteira inexistente, retenção do veículo. A lei não cochila. Mas, quando a cena muda para muitas cidades pequenas do Nordeste, a história ganha outros tons — menos preto no branco, mais cinza de estrada de barro.

Ali, o carro ou a moto não são só meio de transporte; são ferramenta de sobrevivência. É o agricultor indo cedo pra roça, o rapaz levando remédio pra mãe, o pescador atravessando a vila antes do sol nascer. A habilitação, cara e distante, vira luxo. E a fiscalização, muitas vezes, acompanha esse compasso: mais humana, mais rara, às vezes tolerante. Não por desconhecer a lei, mas por conhecer demais a vida.

Isso não apaga o risco. Pelo contrário. Estradas estreitas, motos sem capacete, carros antigos — o perigo anda lado a lado com a necessidade. Quando acontece um acidente, a conta chega sem aviso, e a lei, que parecia distante, reaparece dura, sem sotaque nem afeto. A tragédia não distingue intenção.

A crônica do Nordeste, então, não é sobre desrespeito à lei, mas sobre desigualdade de acesso. Falta escola de trânsito, falta dinheiro, falta Estado constante. Sobra improviso. Sobra coragem. Sobra também a ilusão de que “nunca vai acontecer comigo”.

Entre o código e o cotidiano, fica a pergunta que ecoa nas ruas de paralelepípedo: como cobrar rigor sem oferecer caminho? A resposta talvez esteja menos na multa e mais na ponte — entre a lei que protege e a política pública que inclui. Porque trânsito seguro não nasce só da punição, nasce da oportunidade. E no Nordeste, como em qualquer canto, dignidade também precisa de direção.

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