Ao longo de cinco décadas e meia observando os corredores do poder em Brasília, aprendi que certas transições não são apenas administrativas, e sim, simbólicas. E esta que se desenha a partir deste sábado, 28, carrega exatamente esse peso.
Vejo Ibaneis Rocha deixando o cargo não como quem abandona o barco, mas como quem troca de trincheira. Vai em busca de uma cadeira no Senado com o pragmatismo de sempre, apostando que a gestão que construiu ao longo de quase oito anos fala por si. No lugar dele, assume Celina Leão. Não como figura decorativa, mas como protagonista de um novo capítulo que, no fundo, tenta preservar o mesmo enredo.
O roteiro é claro, quase didático, com um pedindo voto para o outro. E, se nada fugir ao script, o eleitor será convidado a chancelar a continuidade. Não é uma estratégia nova, mas em Brasília ela costuma funcionar quando há entrega, e, goste-se ou não, houve.
Embora com algumas rusgas, Ibaneis sempre me pareceu um gestor de poucas firulas e muitas decisões. Já Celina – com quem também vive momentos desconfortáveis e que agora assume a cadeira principal -, carrega um ativo raro na política, representado por popularidade sem apelo fácil. Não é pouco, e em tempos de gritaria e promessas ocas, isso chega a ser um diferencial competitivo.
Mas, não me iludo. A política não permite zonas de conforto. E a partir do momento em que Celina passa a assinar como governadora, a caneta vira também um alvo. É da regra do jogo, mesmo que, muitas vezes, a disputa mire golpes abaixo da linha da cintura.
Tenho visto, até com certo déjà vu, a tentativa de arrastarem Celina para um terreno que não é o dela. O episódio envolvendo o caso Master–BRB, por exemplo, vem sendo usado como munição. Mas, como testemunhei tantas vezes, narrativa não é sinônimo de verdade. E nesse caso, convenhamos, falta substância. Celina nunca orbitou o núcleo duro comandado por Paulo Henrique Costa. O resto é espuma, e isso, mesmo que impressiona por alguns dias, não sustenta nem aniquila voto.
Chamam-na de “guerreira do Cerrado”. Eu diria que é mais do que isso. Trata-se de uma sobrevivente de um ambiente onde muitos sucumbem antes mesmo de entender o tabuleiro. Mas não vejo Celina como uma Joana d’Arc tropical, pronta para arder em fogueiras alheias.
O curioso é observar quem sopra essas chamas. Todos sabemos que, para o eleitor comum, Brasília tem memória curta. Porém, isso não acontece com quem acompanha de perto. E sei bem que alguns dos que hoje vestem a máscara da moralidade carregam no currículo capítulos nada edificantes. Reitero, como já pontuei em outras ocasiões, que há uma tentativa quase desesperada de reescrever biografias, como se o passado pudesse ser editado ao sabor da conveniência eleitoral. Não pode, claro.
E é aí que reside, ao meu ver, o ponto de inflexão dessa campanha. Um assessor próximo a Celina confidenciou-me, e acredito, que ela fará uma campanha propositiva. Vai falar de gestão, de continuidade, de futuro, mas sem ingenuidade, porque, se provocada, responderá. Não com adjetivos, mas com fatos. Porque, no fim das contas, é isso que separa o discurso da realidade.
Como já disse tantas vezes, a política é o único palco onde alguns insistem em voltar à cena do crime acreditando que o público esqueceu o roteiro. Às vezes, até conseguem. Outras vezes, são surpreendidos não por adversários, mas pela própria história. E quando isso acontece, não há marketing que dê jeito.
Eu sigo observando. Porque em Brasília, mais do que nunca, o poder muda de mãos, mas o jogo continua sendo o mesmo. E quem colocou a mão na botija uma vez, corre o risco de voltar a ver o sol nascer quadrado bem antes de a campanha começar.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
