Nunca na história deste país estivemos tão próximos de confirmar a tese filosófica de que o pior analfabeto é o analfabeto político. Mais enfaticamente, é aquele que acha que basta eleger o menino bonitinho, mas maluquinho, os mercadores da fé e a família que vive para o poder e estará tudo resolvido. Nunca foi e jamais será assim. Pelo contrário. É justamente em nossa omissão política que os malfeitores da vida pública mais investem. Parafraseando Bertolt Brecht, é de nossa ignorância política que nasce a prostituta, o menor abandonado, o desempregado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, corrupto e que só pensa no próprio bolso.
É esse cidadão mal-intencionado que gera e que sustenta o prazer dos maus empresários. Confortável, mas contagiosa, a ignorância política não exige quase nada além de fé cega. É essa cegueira que transforma políticos em mitos e heróis. Na outra ponta, o eleitor vira bobo. Tão bobo que há relatos de “patriotas” afirmando que o raio que caiu sobre a caravana de Nikolas Ferreira teria sido encomendado pelo “desgoverno maldito do Lula”. Meu Deus! É falta de limite mental imaginar Lula contratando drones para despejar raios. Talvez abobalhamento total. Considerando que a cadela da roubalheira está sempre no cio, dizem os mais inteligentes que a vergonha desse povo costuma surgir depois da casa arrombada.
Quase tão excitante e tão ou mais perigosa do que a guerra, a política não é uma ação entre amigos, embora no teatro político todos finjam que se odeiam, mas se cumprimentam na primeira proposta de vantagem pessoal. Não nos esqueçamos que o Congresso que a gente escolher será o Congresso com o qual teremos de conviver por quatro ou oito anos. Torçamos para o que sair das urnas em outubro não seja igual às casas de Airton Lira, Ciro Nogueira, Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Sóstenes Cavalcante, Nikolas Ferreira, Carol de Toni, Marco Feliciano, Zé Trovão, Carlos Jordy, Júlia Zanatta, Izalci Lucas, Bia Kicis, entre outros cujos nomes devem ser esquecidos. Com as graças dos deuses e dos orixás, alguns já estão no andar de cima ou no buraco negro do ostracismo político.
Permaneceremos na UTI e com raios cada vez mais próximos caso seja eleito algo parecido com o Legislativo que hoje briga entre si para libertar ou atenuar penas de golpistas. Precisaremos de extrema unção ou de reza braba caso consigamos eleger congressistas piores do que os de 2018 e 2022. Sem perversidade alguma, mas com a consciência dos anjos, falo em raios e reza braba porque a moda é a exploração da fé, de um falso deus travestido de salvador e com cânticos mentirosos, mas de fervor contra um satanás criado somente para amedrontar os mais ingênuos, os que se locupletam e, às vezes, absolutamente ignorantes.
São aqueles que, em nome de Jesus, se transformam em senhores da manipulação de massas e penetram na mente com o objetivo claro de enriquecer, manipular e dominar. Para isso, nada mais rápido e convincente do que transformar os templos de oração em palanques eleitorais. Infelizmente, alcançamos o que Leonel Brizola havia previsto lá atrás: “Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço. O país retrocederá vergonhosamente e matarão em nome de Deus”. Concordo integralmente, mas trocaria Deus por Bolsonaro, tido e havido como o Messias que veio salvar o Brasil. O mais absurdo é que, no meio da bandalheira política, há um povo que se deixa manipular.
São os cabos eleitorais da mentira e da desonestidade. Tudo em nome de Deus, da pátria e da família, frase normalmente utilizada pelos regimes fascistas e pelas ditaduras. Que o analfabetismo político seja pelo menos atenuado nas eleições que se avizinham. Tomara que todos nós, eleitores de direita, de esquerda ou de centro, nos convençamos de vez que político é para ser cobrado e não idolatrado. Que ecoe sempre em nossas cabeças a máxima de que, quando o que está em jogo é nossa dignidade e nosso futuro, nenhuma escolha partidária ou política pode nos colocar uns contra os outros. Idolatrar adoradores de bezerros de ouro é o mesmo que adorar o ouro dos bezerros. Por fim, ainda que bem embalada, nenhuma mentira é capaz de salvar povo algum.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978
