Bruno da Costa Oliveira só era Bruno para os raros amigos que, teimosos, não desistiam da vida. No entanto, para a maioria, era seu Bruno, já que já havia suplantado a barreira dos 80 há algum tempo e, caso tudo continuasse bem, mesmo que aos trancos e barrancos, chegaria aos 90 anos como seus finados pais. A despeito disso, havia alguém, o pequeno Pedro, de seis anos, que ignorava essas quase regras e, atrevido que era, chamava o sujeito simplesmente de vovô.
O senhor, que há tempos era viúvo, morava em um apartamento na Asa Norte, em Brasília, para onde havia se mudado no início da década de 1970. A princípio, odiou o local e, nos anos seguintes, continuou desgostando, mas o emprego era bom e, assim, foi ficando, ficando, ficando…
As raízes logo começaram a brotar, quando se apaixonou por Margarida. Casaram-se, tiveram dois filhos, que depois formaram as próprias famílias. O pequeno Pedro era justamente o caçula do mais novo, Augusto.
— Pai, daqui a pouco passo aí e deixo o Pedro para você passar o dia com ele.
— E a escola? Ele vai faltar?
— Pai, hoje é domingo.
Pedro, assim que viu o avô, correu para lhe dar um abraço e um beijo chamuscado de saudade na face descarnada. Apesar das discrepâncias de gerações, os dois se davam muito bem, como se um entendesse o mundo do outro ou, ao menos, procurassem se informar sobre.
— Vovô, o senhor sempre foi velho?
— Não, Pedro. Já fui da sua idade. Já fui até mais novo do que você é hoje. Já fui tão pequeno, que minha mãe me carregava no colo.
O menino, olhos arregalados, sorria aquele sorriso inocente cheio de dentes de leite.
— Vovô, queria te conhecer quando você era da minha idade. Assim, a gente poderia brincar mais.
— Mas a gente pode brincar agora. Você quer brincar de quê?
— Conte uma história. Pode ser?
— Bem, você sabe o que é bangue-bangue?
— Bangue-bangue?
— É.
— É de comer?
— Não. É filme de cowboy, com cavalos. Você gosta de cavalo?
— Não muito. Gosto mais de cachorro.
— Eu também. Você se lembra da Doroteia?
— Um pouco. Mamãe me mostrou fotos dela, mas não me lembro muito. Era da vovô, né?
— Sim, era da sua vovô.
— E esse bangue-bangue?
— Ah, é! Bem, quando eu era pouca coisa maior do que você, eu gostava de ver no cinema filmes de bangue-bangue. E sempre havia o mocinho para enfrentar um monte de bandidos.
— Sério?
— Sério.
— Coitado desse mocinho.
— Pois é, Pedro. E havia um que eu adorava. Era o meu favorito. Ele era o mais bem-vestido. E tinha um lindo cavalo chamado Trigger.
— Trigo?
— Quase. Trigger.
— Que nome maneiro.
— É mesmo. E dono do Trigger se chamava Roy Rogers. E sempre andava impecavelmente vestido. Ele só tinha um defeito.
— E qual era?
— Ih, ele apanhava demais.
— Coitado, vovô.
— É verdade. Mas no final ele prendia todos os bandidos e saía todo pimpão montado no Trigger, que tinha uma sela linda.
— Legal, vovô. Mas eu não queria ser mocinho pra apanhar tanto.
— É verdade, Pedro. Nem eu.
— E ele chorava quando batiam nele?
— Hum. Não.
— Mesmo assim, não quero ser mocinho. Eu choro até quando ralo o joelho no chão.
— Sabe de uma coisa?
— O quê, vovô?
— Eu também choro. Mas não conta pra ninguém. Combinado?
— Combinado, vovô.
Os dois se abraçaram e, logo depois, o garoto sussurrou no ouvido do idoso:
— Vovô, sabe de uma coisa?
— O quê?
— Eu te amo.
……………………
Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
Compre aqui
https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho
