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Asa Norte

Entre mocinhos e bandidos

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Bruno da Costa Oliveira só era Bruno para os raros amigos que, teimosos, não desistiam da vida. No entanto, para a maioria, era seu Bruno, já que já havia suplantado a barreira dos 80 há algum tempo e, caso tudo continuasse bem, mesmo que aos trancos e barrancos, chegaria aos 90 anos como seus finados pais. A despeito disso, havia alguém, o pequeno Pedro, de seis anos, que ignorava essas quase regras e, atrevido que era, chamava o sujeito simplesmente de vovô.

O senhor, que há tempos era viúvo, morava em um apartamento na Asa Norte, em Brasília, para onde havia se mudado no início da década de 1970. A princípio, odiou o local e, nos anos seguintes, continuou desgostando, mas o emprego era bom e, assim, foi ficando, ficando, ficando…

As raízes logo começaram a brotar, quando se apaixonou por Margarida. Casaram-se, tiveram dois filhos, que depois formaram as próprias famílias. O pequeno Pedro era justamente o caçula do mais novo, Augusto.

— Pai, daqui a pouco passo aí e deixo o Pedro para você passar o dia com ele.

— E a escola? Ele vai faltar?

— Pai, hoje é domingo.

Pedro, assim que viu o avô, correu para lhe dar um abraço e um beijo chamuscado de saudade na face descarnada. Apesar das discrepâncias de gerações, os dois se davam muito bem, como se um entendesse o mundo do outro ou, ao menos, procurassem se informar sobre.

— Vovô, o senhor sempre foi velho?

— Não, Pedro. Já fui da sua idade. Já fui até mais novo do que você é hoje. Já fui tão pequeno, que minha mãe me carregava no colo.

O menino, olhos arregalados, sorria aquele sorriso inocente cheio de dentes de leite.

— Vovô, queria te conhecer quando você era da minha idade. Assim, a gente poderia brincar mais.

— Mas a gente pode brincar agora. Você quer brincar de quê?

— Conte uma história. Pode ser?

— Bem, você sabe o que é bangue-bangue?

— Bangue-bangue?

— É.

— É de comer?

— Não. É filme de cowboy, com cavalos. Você gosta de cavalo?

— Não muito. Gosto mais de cachorro.

— Eu também. Você se lembra da Doroteia?

— Um pouco. Mamãe me mostrou fotos dela, mas não me lembro muito. Era da vovô, né?

— Sim, era da sua vovô.

— E esse bangue-bangue?

— Ah, é! Bem, quando eu era pouca coisa maior do que você, eu gostava de ver no cinema filmes de bangue-bangue. E sempre havia o mocinho para enfrentar um monte de bandidos.

— Sério?

— Sério.

— Coitado desse mocinho.

— Pois é, Pedro. E havia um que eu adorava. Era o meu favorito. Ele era o mais bem-vestido. E tinha um lindo cavalo chamado Trigger.

— Trigo?

— Quase. Trigger.

— Que nome maneiro.

— É mesmo. E dono do Trigger se chamava Roy Rogers. E sempre andava impecavelmente vestido. Ele só tinha um defeito.

— E qual era?

— Ih, ele apanhava demais.

— Coitado, vovô.

— É verdade. Mas no final ele prendia todos os bandidos e saía todo pimpão montado no Trigger, que tinha uma sela linda.

— Legal, vovô. Mas eu não queria ser mocinho pra apanhar tanto.

— É verdade, Pedro. Nem eu.

— E ele chorava quando batiam nele?

— Hum. Não.

— Mesmo assim, não quero ser mocinho. Eu choro até quando ralo o joelho no chão.

— Sabe de uma coisa?

— O quê, vovô?

— Eu também choro. Mas não conta pra ninguém. Combinado?

— Combinado, vovô.

Os dois se abraçaram e, logo depois, o garoto sussurrou no ouvido do idoso:

— Vovô, sabe de uma coisa?

— O quê?

— Eu te amo.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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