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Enxerido e curioso acaba nos anais do Guiness

Menino levado no subúrbio do Rio de Janeiro, aprendi cedo que conversa que a gente não entende minhoca lá. Custei a entender a metáfora, mas sua definição é simples: se não captar a mensagem que tentam lhe passar durante os melhores momentos de silêncio ou de sussurros, não insista. Resista, pense no mundo paradisíaco da libidinagem, mas nada pergunte. O risco de se arrepender é muito maior do que qualquer prazer decorrente da resposta. É a velha conclusão daquele ditado certamente redigido pelos sábios de Kubanacan: quem procura acha. Portanto, como dizem os silenciosos baianos, lá ele.

Nem tão antiga como os alertas acima, a história do incauto, inocente e crédulo amigo beira o surreal, mas é mais real do que uma moeda de cinquenta cruzeiros. Aliás, a bem da verdade e antecipando o fim do causo casual, foi com circunferência parecida que o sujeito terminou sua noite. Isso está no escaninho dos anais e na primeira página do Guiness Book dos cruzamentos heterodoxos, apesar de héteros. Ainda na fase de conhecimento da fertilidade do terreno onde plantaria nabo, mandioca e pepino, o parça já se preocupava com a então namorada.

Moça sem recato algum e com a experiência demonstrada desde o olhar lascivo, já no primeiro cruzo a escolhida repetia exaustivamente no ouvido esquerdo do ensandecido rapaz: Liga, liga, liga, liga, liga. E assim foi até a décima-primeira vez. Conto sobre a última porque estou longe dele. Sem saber se a referência do Liga, liga, liga era ao pagode, sertanejo, axé ou ao samba canção, o mancebo de poucas viagens recorreu aos ensinamentos dos supostamente mais experientes, dos quais ouviu o que jamais deveria ter ouvido.

Não houve acerto prévio, mas a recomendação foi exatamente a mesma. A orientação dada foi a seguinte:  antes de o picotador de gelo entrar em ação, se antecipe à fala da rapariga e peça você mesmo o Liga, liga, liga. Assim foi feito. Picote acertado, biscoito sendo molhado e, de repente, na desenvoltura inicial, o amigo grita: Liga, liga, liga, liga. Pedido anunciado, pedido atendido. A evolução do polegar direito no girassol do ex-virgem cidadão suburbano foi imediata. O grito que o bairro inteiro ouviu não poderia ser outro: Desliga, desliga, desliga.

Como toda mente que se abre para uma nova ideia jamais volta ao tamanho normal, o botão do amigo também não. Na verdade, nunca mais entrará na mesma casa. Pelo tamanho da moeda, o teste da farinha tornou-se desnecessário. É o custo normalmente pago pelos curiosos e enxeridos. Por princípio, meio e fim, não costumo desejar a ninguém o que não quero que desejem para mim. Entretanto, nesse tipo de situação sempre vale a pena meter a colher. Nunca o garfo ou a faca.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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