Estudando os livros de autoajuda, descobri que, tanto no amor quanto na política, não existe sorte, galinha dos ovos de ouro e nem gênio da lâmpada. O que existe são boas escolhas. Por exemplo, no casamento a perfeição é quando o casal briga por tudo, mas não se separa por nada. Como dizia Chico Anysio, quem é casado há 40 anos com dona Maria não entende nada de casamento, mas sabe tudo de dona Maria. De casamento quem entendia mesmo era o próprio Chico. Oficialmente, ele teve seis.
Ou seja, ainda que dure pouco, o casamento é coisa séria. É um relacionamento a dois, no qual uma das pessoas está sempre certa. A outra é o marido. Pelo menos dormem na mesma cama até que a primeira briga os separe. Já a política é uma piada de mau gosto. No máximo, ficção científica ou masturbação individualizada, pois só eles é que relaxam e gozam. No casamento, a verdade tem de prevalecer. Na política brasileira, todos sabemos que a verdade não elege ninguém.
Entra ano, sai ano e a mentira permanece como o principal capital político da maioria dos candidatos. Mentem como se estivessem fazendo poesias para a mulher amada. Quando eleitos, a primeira promessa de parlamentares e de governantes é acabar com a fome nas famílias. De imediato, recolhem as camas. Como casal, o homem e a mulher não aceitam traição. E os políticos? Esses são a mentira legitimada pelo povo, pois nascem e morrem traindo. Eles amam trair, mas costumam escantear e, às vezes, esfolar o traidor.
Diz a Bíblia que o casamento faz de duas pessoas uma só. Difícil é determinar quem será quem. Pior ainda é saber qual partido ganhará a eleição na sala. Na cartilha do povo, casamento e política são como um circo. Casados, somos equilibristas, domadores e mágicos. Como eleitores, não passamos de palhaços. Basta um voto errado para experimentarmos a tromba do elefante. Isso quando não caímos na boca do leão.
Na vida a dois, normalmente os afazeres domésticos são concluídos juntos. Nem sempre, mas isso é besteira. Não importa a instância, mas a política exige pelo menos dois parlamentares para trocar uma lâmpada. Preferencialmente de ideologias diferentes, um é pago para tirá-la e o outro para colocá-la de volta. É claro que nem tudo é regra, mas casamento e política são análogos, pois, quando acabam as alianças, começam as acusações.
Na relação matrimonial, o marido trabalhador precisa explicar à esposa logo na primeira discussão sobre relação que, embora suas despesas mensais sejam de dois mil reais, seus vencimentos alcançam exatos mil reais. Ambos se unem para conquistar os mil reais restantes. Eleito, o político é informado dessa tragédia familiar, mas se limita a dizer que não lhe interessa saber como o casal conseguirá os outros mil reais. Donde se conclui que, juntos, temos a obrigação de impedir a reincidência de criminosos. Como? Não os reelegendo. Simples assim.
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras
