O clima nos partidos de esquerda do Distrito Federal começa a ganhar contornos de estratégia refinada — e, em alguns casos, de cálculo quase milimétrico. Nos bastidores, a movimentação não se dá apenas em torno de candidaturas, mas sobretudo da redistribuição de votos, espaço político e sobrevivência eleitoral.
Um dos exemplos mais comentados envolve o deputado distrital Fábio Félix, que, segundo aliados, torce — e muito — para que a deputada federal Érika Kokay dispute uma das duas vagas ao Senado nas eleições de outubro.
A lógica por trás dessa torcida é simples, mas reveladora: caso Érika migre para a disputa majoritária, abre-se uma janela considerável no eleitorado progressista do DF. Parte significativa dos votos historicamente destinados à petista poderia, então, ser redirecionada — ou disputada — por nomes como Fábio Félix, que mira uma vaga na Câmara dos Deputados.
Esse movimento evidencia uma engrenagem típica da política brasiliense: candidaturas que, à primeira vista, parecem independentes, mas que, na prática, dialogam entre si na tentativa de reorganizar forças dentro do mesmo campo ideológico.
No PT, a eventual candidatura de Érika Kokay ao Senado também não é consenso absoluto. Setores do partido avaliam riscos e oportunidades, especialmente diante de um cenário já fragmentado e com disputas internas latentes. Já no PSOL, a possível “subida” de Kokay ao Senado é vista por alguns como oportunidade estratégica.
Embora o discurso público ainda seja o da unidade da esquerda, os bastidores mostram um cenário mais complexo: partidos aliados disputam o mesmo eleitorado, ajustando suas peças com cuidado para evitar colisões diretas — ou, quando inevitáveis, para tirar delas o maior proveito possível.
No fundo, o que se desenha é uma corrida em que cada movimento importa. E, na esquerda do DF, rezar, como dizem os aliados de Fábio Félix, pode até fazer parte do ritual. Mas é o cálculo político que, de fato, dita as regras do jogo.
